Photo by AJ Mast for The Washington Post
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Universidades ligam o alerta com explosão de casos de coronavírus dias após o início das aulas

Embora um número crescente de universidades venha desistindo de reabrir, optando por aulas online, outras esperam que uma série de novas regras e adaptações possa manter o coronavírus sob controle

Hannah Knowles, The Washington Post

26 de agosto de 2020 | 13h35

Mais de 500 casos na Universidade do Alabama, em Tuscaloosa. Quase 160 na Universidade de Missouri, em Columbia. Dezenas na Universidade do Sul da Califórnia.

Faculdades e universidades que trouxeram alunos de volta ao campus estão ligando o alerta diante do crescimento das infecções por coronavírus, pois as aulas mal recomeçaram, o que aumenta a possibilidade de que todos sejam mandados para casa, mais uma vez.

"O aumento que vimos nos últimos dias é inaceitável e, se não for controlado, ameaça nossa capacidade de concluir o resto do semestre no campus", disse o presidente da Universidade do Alabama, Stuart Bell, em entrevista coletiva na segunda-feira, cinco dias depois do reinício das aulas. O prefeito de Tuscaloosa fechou temporariamente os bares e advertiu que o sistema de saúde local pode ficar sobrecarregado.

Embora um número crescente de universidades venha desistindo de reabrir, optando por aulas online, outras esperam que uma série de novas regras e adaptações possa manter o coronavírus sob controle. Essas regras exigem máscaras e testes e ameaçam alunos e grupos do campus com penalidades em caso de festas. A Universidade Estadual de Ohio disse esta semana que suspendeu 228 alunos por violações relacionadas ao vírus.

Apesar das precauções, as universidades estão descobrindo grandes surtos que impuseram uma nova reflexão sobre o compromisso dos alunos com o distanciamento social e a capacidade das universidades de oferecer uma experiência dramaticamente transformada no campus. Falando na segunda-feira, Bell se recusou a culpar a falta de cuidado dos jovens e enfatizou que cabe à universidade trabalhar com todos para minimizar as infecções.

"Nosso desafio não são os alunos", disse Bell, embora reconhecendo que vários alunos estejam enfrentando punições por terem quebrado regras do coronavírus. "Nosso desafio é o vírus".

O prefeito de Tuscaloosa, Walt Maddox, que deu a entrevista coletiva de segunda-feira ao lado de Bell, disse que a universidade havia solicitado a ordem executiva que fecha bares por duas semanas e elimina o serviço de bar nos restaurantes. Ele disse que "o número crescente de casos de coronavírus no campus, se não for interrompido, criará dois grandes transtornos para Tuscaloosa": a sobrecarga do sistema de saúde da cidade e a ameaça à sua economia, a qual conta com milhares de empregos universitários.

Entre os alunos, professores e funcionários testados em todo o sistema da Universidade do Alabama, 566 tiveram resultados positivos para o vírus desde 19 de agosto, de acordo com um painel que está sendo atualizado. Esses números não incluem os "testes de entrada", feitos para garantir que os alunos saiam de casa livres do coronavírus.

A esmagadora maioria dos novos casos, 531, encontra-se no campus principal, em Tuscaloosa.

"A verdade é que o outono em Tuscaloosa está seriamente ameaçado", disse Maddox.

Outras autoridades estão emitindo comunicados igualmente consternados diante da contagem inicial de casos. Sarah Van Orman, diretora de saúde do estudante da Universidade do Sul da Califórnia, escreveu na segunda-feira que houve "um aumento alarmante no número de casos de covid-19 em estudantes da comunidade do campus" durante a primeira semana do semestre.

Em sete dias, disse Van Orman, foram registrados 43 casos, todos eles "entre estudantes em ambientes externos ao campus". Mais de 100 alunos estão em quarentena de 14 dias por causa da exposição ao coronavírus, disse ela.

"Los Angeles encontra-se em um momento crítico na saúde pública", escreveu Van Orman aos alunos. "Ainda que nenhum aluno tenha sido hospitalizado até este momento, todos nós precisamos trabalhar juntos para proteger aquelas pessoas de nossa comunidade que podem estar sob maior risco de adoecer gravemente e para prevenir consequências graves para todos".

A Universidade Estadual de Iowa relatou 130 casos na semana que se passou desde o início das aulas. A Universidade de Missouri em Columbia previu um "novo normal" com a reabertura do campus - de salas de aula reduzidas a uma campanha educacional de líderes estudantis e influenciadores - mas se deparou com 159 casos de coronavírus entre os alunos no primeiro dia de aula.

Algumas universidades mudaram de direção quando os casos saíram de controle. Em 17 de agosto, a Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill anunciou que voltaria ao ensino totalmente remoto para a graduação depois que 177 alunos testaram positivo e outras centenas entraram em quarentena por causa da possível exposição. A Universidade de Notre Dame tomou a mesma decisão no dia seguinte, interrompendo o ensino presencial por pelo menos duas semanas na tentativa de conter as infecções.

Mas os casos continuam se acumulando. Chapel Hill diz que recebeu resultados de mais de 1.500 testes na semana passada, mais de 500 deles positivos. Até agora, pelo menos 784 alunos testaram positivo, a maioria infectada depois do início do semestre.

As universidades que vêm avançando rumo às aulas presenciais estão tentando mostrar aos alunos que é preciso levar o distanciamento social a sério.

O surto de coronavírus na Central Michigan University suscitou preocupações a respeito das festas, o que levou o presidente Bob Davies a anunciar na segunda-feira a suspensão das "atividades pessoais". A escola registrou 54 novos casos em sete dias, disse Davies.

Dezenas de professores em Michigan querem que a governadora intervenha. Mais de 200 membros do corpo docente enviaram uma carta à governadora de Michigan, a democrata Gretchen Whitmer, pedindo que ela "ordene que aulas que não exigem ensino presencial como parte de sua pedagogia (...) realizem-se totalmente online". A maioria dos professores é da Grand Valley State University, mas também há professores da Central Michigan University, Western Michigan University, University of Michigan-Flint e Northern Michigan University, de acordo com o site M-Live.com.

A Universidade de Syracuse publicou uma carta contundente em 20 de agosto, dizendo que um "grande grupo de alunos do primeiro ano" enfrentaria medidas disciplinares por causa de um evento noturno que "egoisticamente comprometeu" a experiência residencial. A carta advertiu que esses alunos "podem ter causado danos suficientes para fechar o campus, incluindo alojamentos universitários e ensino presencial, antes mesmo do início do semestre acadêmico".

Na Universidade Estadual de Ohio, onde a diretoria promoveu uma das maiores punições já registradas até aqui, na forma de suspensões, o porta-voz da universidade, Ben Johnson, enfatizou que a escola tem quase 70 mil alunos, muitos dos quais estão seguindo as regras.

"Se você der uma volta pelo campus comigo agora, vai ver centenas, na verdade milhares de alunos fazendo tudo certo", disse Johnson ao Washington Post.

Mas as decisões de algumas poucas pessoas podem ter consequências sérias.

"Estamos lembrando aos alunos, em todas as oportunidades possíveis, que as escolhas de cada indivíduo afetam a todos nós aqui no campus e, portanto, todos nós temos que fazer a coisa certa se quisermos permanecer aqui no campus", disse Johnson. "E, se não fizermos todos a coisa certa, talvez tenhamos que ir para casa".

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Antonia Farzan, do Washington Post, contribuiu com a reportagem/ Tradução de Renato Prelorentzou.

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