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Uribe, a volta por cima

Após meio século de violência guerrilheira, frequentemente em dobradinha com os piores narcotraficantes, os colombianos já não se impressionam com facilidade. No entanto, a votação do inexpressivo Oscar Iván Zuluaga no primeiro turno da eleição presidencial, na semana passada, foi um espanto.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2014 | 02h02

Há poucos meses, o franco favorito era o atual presidente Juan Manuel Santos. Agora, Santos tentará salvar a sua carreira política no segundo turno, daqui a duas semanas.

De carisma e currículo eleitoral, Zuluaga, um ex-ministro da Fazenda, nada tinha. No entanto, ostentava uma carta na manga: Álvaro Uribe. Impedido pela Constituição de voltar ao poder, o popularíssimo ex-líder colombiano optou por um avatar. E, na história política colombiana, quem o cacique unge candidato, dificilmente não leva.

Tamanha é sua reputação de eminência parda que o líder colombiano paira sobre a peleja como um helicóptero de combate Black Hawk. Sem cargo político formal desde 2010, Uribe agitou nos bastidores. Há um ano, criou um novo partido, o Centro Democrático, pelo qual se elegeu senador e levou mais 18 no seu rastro, criando a segunda bancada do Senado.

Sua influência vai mais longe. Como todos os cinco candidatos tinham laços fortes com o ex-presidente, inclusive três ex-ministros, um aliado antigo e uma ex-noiva, corria a piada: "Em que uribista o eleitor deveria confiar?"

Nada de estranho num continente onde o populismo ainda encanta, mas tamanho poderio pessoal causa estranheza na Colômbia, que se transformou de país à beira da falência à promessa da América Latina, com inflação baixa e investimento recorde, justamente por ser uma nação de leis e não de caudilhos.

Foi Uribe que calçou esse caminho. Com US$ 7 bilhões de Washington, travou guerra total ao tráfico e contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), resgatando a nação. Se pudesse concorrer a um terceiro mandato, teria se eleito em um estalo de dedos. A Corte Constitucional, porém, vetou e Uribe recorreu a Santos, seu então ministro de Defesa, outro tecnocrata que surgiu do nada para ganhar com folga.

Pelo cálculo do padrinho, Santos deveria seguir a toada uribista, com mão de ferro contra as Farc e guerra fria contra o vizinho Hugo Chávez e seus aliados do naipe bolivariano. Santos desafinou. Procurou Chávez para destravar o comércio bilateral, paralisado na gestão de Uribe, e afagou o equatoriano Rafael Correa, que fizera vista grossa para a guerrilha colombiana alojada em suas matas.

Não teria problema se a política colombiana ainda fosse o tradicional "clube de cavalheiros", como explica Michael Shifter, do centro de estudos Inter-American Dialogue. Chávez, contudo, era inimigo visceral de Uribe e as relações entre criador e criatura começaram a ruir. Implodiram de vez em outubro de 2012, quando Santos começou a negociar a paz com a guerrilha.

De protegido, Santos virou alvo preferencial de Uribe. Em terra, lançou Zuluaga, trabalhando seus currais nas zonas rurais. No ar, armou sua conta no Twitter, disparando sem trégua acusações, piedades e impropérios para seus 3 milhões de seguidores. Traidor, entreguista e inocente útil do "castro-chavismo" são apenas algumas das pérolas da casamata uribista. Logo, a campanha presidencial virou uma rede de intrigas, com direito a hackers e espionagem.

Nada de novo para quem conhece o estilo Uribe de brigar, mas a ofensiva ressoou entre os colombianos que desejam o fim do arrastado conflito com as Farc, mas desconfiam de uma falsa paz. Causou impacto a promessa de Zuluaga de dar à guerrilha uma semana para abandonar as armas ou se preparar para a guerra total. Qualquer que seja o resultado no dia 15, a primeira eminência parda latino-americana (desculpe aí, Lula) já está na dianteira.

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS 'VOCATIV'

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