Urnas deverão garantir vitória do PRI, mas refletir desilusão com Peña Nieto

Mensagem. Mexicanos votam hoje para renovar a Câmara dos Deputados; pesquisas indicam que o partido do presidente continuará com maioria, mas redução no número de cadeiras será um recado após escândalos de corrupção e agravamento da violência no México

FERNANDA SIMAS, RENATA TRANCHES, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2015 | 02h08

Com a imagem de um governo manchado por denúncias de corrupção e episódios de violência, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, enfrenta hoje um teste nas urnas. A baixa popularidade não deve sacrificar seu Partido Revolucionário Institucional (PRI) nas eleições legislativas e locais, mas a decepção com o líder poderá lhe custar algumas cadeiras no Parlamento, tornando mais difícil para ele governar nos seus três últimos anos de mandato.

A popularidade de Peña Nieto é uma das mais baixas para um presidente mexicano nos últimos anos. Segundo o analista do Instituto México do Wilson Center Roderic Ai Camp, as urnas enviarão um recado afetando, em geral, o desempenho do PRI nas urnas. "Esse resultado tornará mais difícil para ele alcançar as legislações necessárias para lidar com as sérias questões no México", afirma, em entrevista ao Estado.

Os mexicanos elegerão hoje 9 de 32 governadores, a nova formação da Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas e prefeituras em 17 Estados.

Quando tomou posse, em 2013, Peña Nieto era visto como um reformador. Passados quase três anos, casos de corrupção envolvendo seu nome e episódios de violência no país puseram fim à lua de mel entre o novo líder e os mexicanos.

O advogado e professor da Universidade Iberoamericana Netzaí Sandoval explica que Peña Nieto perdeu legitimidade de forma acelerada e agora os escândalos marcam seu governo. "Ele esteve envolvido em conflitos de interesse que, se fosse em qualquer outro país, teriam resultado em um processo de impeachment", afirma ao Estado. Sandoval se refere ao escândalo envolvendo a compra de uma casa de US$ 7 milhões pela primeira-dama Angélica Rivera de uma construtora que teve diversos contratos com o Estado mexicano.

Além disso, um dos principais episódios que contribuiu para a queda na popularidade do presidente foi o caso dos 43 estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa, ano passado. A versão oficial é a de que eles foram sequestrados e mortos por traficantes, mas parentes e entidades de defesa dos direitos humanos não concordam e continuam com outras investigações.

Por outro lado, segundo Sandoval, o Partido Ação Nacional (PAN), segunda força no México, chega dividido para a disputa. Atualmente, dos 500 assentos, o PRI têm 214 e o PAN, 113.

De acordo com a última pesquisa autorizada no México, divulgada na quarta-feira, o PRI aparecia na frente com 31% das intenções de voto. Na sondagem, do Instituto Financiero-Parametría, o PRI tinha uma vantagem de seis pontos sobre o PAN, que aparecia com 25%.

O instituto informou ter registrado uma queda na preferência pelo PRI a partir de julho e agosto de 2014, período em que a aprovação ao governo Peña Nieto também começou a cair.

Nos dois meses anteriores, o partido chegou a registrar 46% da preferência dos eleitores, mas em seguida esse número caiu para 35%. Desde então, continuou caindo. Mesmo assim, permanece à frente. O partido, segundo as pesquisas e a opinião dos analistas, garantirá a maioria para o presidente, mas seu desempenho refletirá o descontentamento da população.

Boicote. Nos últimos dias, tornaram-se frequentes os pedidos de boiote às eleições. Em Guerrero e outros locais, manifestantes saíram às ruas pedindo às pessoas que não compareçam às urnas. O principal argumento: a violência no México.

O descontentamento, associado ao medo da violência que se agravou às vésperas da votação, deverá se refletir em uma baixa participação. O cenário, segundo Camp, beneficia o PRI por ter uma capacidade maior de mobilizar sua base.

Para Sandoval, não só o PRI, mas o PAN também sai ganhando. "Isso convém aos dois partidos, que contam com mais dinheiro público e privado para comprar votos e assegurar porcentagens (voto na legenda)", argumenta.

Essas também são as primeiras eleições após a reforma eleitoral no país, ano passado. Uma das principais mudanças é a abertura do sistema eleitoral a registro de candidatos não vinculados a partidos. Um exemplo é o caso do candidato ao governo de Guerrero Pablo Amilcar Sandoval, com chances de vitória. O político falou em tornar públicas as declarações patrimoniais de funcionários do Executivo e ter uma legislação de crimes de corrupção.

Camp afirma que candidatos independentes são uma "opção fascinante" nessas eleições e muitos mexicanos têm demonstrado intenção de dar seu voto a eles. No entanto, é muito difícil a preferência se traduzir em vitórias. "A maioria dos eleitores indica preferência por candidatos com experiência política ou pública", pondera Camp.

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