Urnas tendem a reforçar posição de Khamenei

Primeiros números indicam que aliados do líder supremo do Irã tiveram resultado melhor do que os de Ahmadinejad na eleição

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / TEERÃ, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h04

Os sinais emitidos pelo regime iraniano são de que o líder espiritual Ali Khamenei sairá ganhando na disputa não declarada com o presidente Mahmud Ahmadinejad. Os primeiros resultados das eleições parlamentares indicam que o grupo do presidente perdeu cadeiras no Parlamento e nem mesmo a sua irmã, Parvin Ahmadinejad, conseguiu se eleger na cidade natal do mandatário, Garmsar.

Já os partidários de Khamenei teriam tido bom desempenho. De acordo com a agência semioficial Mehr, a Frente Unida dos Principistas, que apoia Khamenei (assim como a Frente da Firmeza), foi a que teve mais votos em Teerã. A agência anunciou também a reeleição do presidente do Parlamento, Ali Larijani, com 270 mil votos, na cidade sagrada de Qom. Larijani é um importante aliado de Khamenei.

É impossível medir até que ponto os resultados anunciados pelo Ministério do Interior refletem o que se passou nas urnas. Em 2009, contra a percepção de muitos observadores, foi anunciada a vitória de Ahmadinejad sobre o principal candidato da oposição, Mir Hussein Moussavi - agora sob prisão domiciliar, assim como sua mulher, Zahra Rahnavard, ex-reitora da Universidade Al-Zahra, que participou ativamente da campanha, e outro candidato da oposição, Mehdi Karoubi.

Na sexta-feira, o Ministério do Interior anunciou comparecimento de 64,6% - 31 milhões de eleitores. Segundo o ministério, em Teerã a participação foi de 52%. Ao contrário de 2009, quando as filas dobravam os quarteirões das seções eleitorais, na sexta-feira ou não se formaram filas ou elas tinham no máximo algumas dezenas de pessoas.

O ministro do Interior, Mostafa Najar, disse na sexta-feira que "o comparecimento maciço enfureceu e desapontou os inimigos do Irã". Dois dias antes das eleições, Najar, cujo ministério é encarregado da contagem dos votos, havia previsto "eleições gloriosas, com participação mais maciça que no passado". Nas últimas eleições parlamentares, em 2008, que tiveram a participação da oposição, o comparecimento foi de 61%.

O irônico na disputa de poder entre Khamenei e Ahmadinejad é que o apoio do líder espiritual foi importante para a eleição do presidente em 2005 e decisivo para sua reeleição, em 2009. Na manhã do dia 13 de junho, um dia depois da eleição, quando os manifestantes ocupavam as ruas para denunciar fraude na apuração dos votos, uma mensagem de Khamenei lida em cadeia de rádio e TV sacramentou a vitória de Ahmadinejad sobre Moussavi, por 63% a 34%.

"Em boa hora, o povo do Irã, homens e mulheres livres e corajosos, fizeram história na revolução, mostrando seu progresso político a todo o mundo, com o comparecimento de 80% e os 24 milhões de votos dados ao presidente", celebrou o líder espiritual. Enquanto a polícia de choque entrava em ação, espancando e prendendo os manifestantes, o líder alertou que os "inimigos internos e externos" estavam promovendo provocações para impedir a nação de celebrar os resultados das eleições, e que "sobretudo os jovens devem ficar totalmente alertas e evitar ações e declarações provocativas e suspeitas".

Mas desde o primeiro mandato de Ahmadinejad têm transpirado informações sobre insatisfações do líder com a retórica abrasiva do presidente e seus avanços sobre fatias de poder do Estado.

O problema, para Khamenei, é que as outras lideranças, como os ex-presidentes Ali Akhbar Hashemi Rafsanjani, da corrente tecnocrata, e o reformista Mohamed Khatami, estão distantes dele ideologicamente. Mesmo Moussavi, um conservador moderado, acabou atraindo o apoio do eleitorado reformista na "Primavera de Teerã" em 2009, e parece menos palatável a Khamenei. Ahmadinejad tem credenciais conservadoras impecáveis e é popular. O líder espiritual decidiu ficar com ele, e enquadra-lo.

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