Uruguai, Davi contra Golias

A disputa entre Uruguai e a companhia de tabaco Philip Morris pode ter passado em branco para o grande público internacional. Mas o contencioso que se espalha através de oceanos e continentes bem que poderia ser a mãe de todas as guerras assimétricas. Este ano, a pequena nação sul-americana, com 3,5 milhões de habitantes e um PIB de $44 bilhões, provocou o império, apertando ainda mais as já severas restrições à venda de cigarros no país.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

O gigante do fumo, com valor de mercado de $108 bilhões e batalhões de advogados de Lausanne a Washington, reagiu levando o Uruguai ao painel de livre comércio do Banco Mundial, exigindo indenização milionária. O campo de batalha é miúdo, do tamanho de um maço de cigarro. Mas a causa mexe com bandeiras fortes, como soberania nacional, livre iniciativa e saúde pública. A briga está longe do fim, mas o Uruguai já mostra a que veio, um pequeno país que toma passos grandes.

No braço, a multinacional poderá levar o melhor ou pelo menos embaralhar o país réu por longos anos nos tribunais internacionais. Mas mesmo um ganho de causa pode custar caro à marca e à reputação da empresa, e é aí que esse Davi latino ostenta sua vantagem competitiva num mundo de colossos.

Para liberar a venda de cigarros no país, o Uruguai obriga a Philip Morris, fabricante de Marlboro, a estampar em pelo menos 80% de cada embalagem macabras ilustrações das mazelas de fumar: um recém-nascido grotescamente deformado, uma deficiente pulmonar no leito hospitalar, câncer bucal. A companhia protestou que, para acatar a ordem, teria de encobrir parcialmente a logomarca, impondo-lhe perdas que violariam o pacto de livre comércio entre Uruguai e Suíça, sede operacional da Philip Morris.

A briga é dura, mas quem enxergue nisso um choque clássico entre o esquerdismo raivoso típico de um país do terceiro mundo contra a soberba do imperialismo transnacional está com a vista embaçada. Para defender-se, Uruguai juntou aliados de gabarito, entre eles os ministros de Saúde de 171 países, a Organização Pan-Americana de Saúde e o prefeito de Nova York, Michael Boomberg. Antitabagista radical, Bloomberg doou milhares de dólares a Montevidéu e ainda elogiou o presidente José Mujica pelo bom combate.

A aliança é, no mínimo, peculiar. Ex-adepto da luta armada, "Pepe" Mujica passou a vida xingando figurões do alto capitalismo como Bloomberg. Agora, aos 75 anos e de posse das chaves do país, virou (atenção equipe Dilma Rousseff!) devoto do pragmatismo e da parcimônia, dedicado a derrotar o monstrengo da burocracia. Desde que tomou posse, em março, cortou gastos, entrou em choque com sindicalistas, enfrentou uma greve geral e mandou ao Congresso uma proposta para reformar o Estado balofo que até hoje não andou. Recentemente exigiu que os servidores públicos ficassem no mínimo seis horas no expediente e foi processado. "Qualquer coisa que você faz nesse país é um parto", desabafou sobre a máquina do governo. "Não te deixam fazer nada."

Impressionante é quanto Uruguai já fez. Um naco de território imprensado entre portentos, o país tinha tudo para ser mero figurante na história continental. Ao contrário, investiu na educação, saúde e infraestrutura e agora desponta como hub de comércio regional, candidato a Hong Kong latino. Passou quase incólume pela grande recessão e hoje cresce ao ritmo de 7,8% ao ano, mais de três vezes a média do último meio século. É o país mais próspero da América Latina, segundo o Instituto Legatum, de Londres, que leva em conta desde os fundamentos econômicos até a saúde pública e a felicidade do povo.

Parte desse sucesso é a capacidade de adaptar-se a circunstâncias históricas e de construir e preservar políticas sensatas. A outra, é a continuidade da administração prudente, sem gastança ou firulas populistas, que deu ao país um upgrade internacional e o credenciou para o embate com a Philip Morris. Juntamente ao equilíbrio político e econômico, Mujica herdou do antecessor Tabaré Vásquez, um oncologista, o zelo que tornou o país não apenas inóspito ao fumo (de 2006 a 2009 o número de fumantes uruguaios caiu de 32% a 25 %), mas também o foco de resistência à indústria global.

Perdendo clientes nos países ricos, onde fumar ficou entre o pecado capital e o homicídio triplamente qualificado, a grande tabaco luta para se reinventar. A oportunidade está - onde mais? - nos países em desenvolvimento, onde o hábito ainda corre solto. (Dois terços da receita da British American Tobacco já vem dos mercados emergentes.) O Uruguai é um anexo modesto no fumódromo global, mas seu exemplo já comove outros e acende um alerta à indústria. Pode não ser mera fumaça.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK", COLUNISTA DO "ESTADO", E EDITA O SITE

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