Uruguai e Argentina dão sinais de reaproximação

O Uruguai e a Argentina vão criar uma comissão negociadora com representantes de ambos os países para tratar temas que vão de energia e gás à navegação no Rio Uruguai, passando por assuntos relacionados ao Mercosul. A decisão foi anunciada ontem à noite pelo presidente eleito do Uruguai, José "Pepe" Mujica, e pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner, após encontro na Casa Rosada. Este é o primeiro sinal concreto de reaproximação entre os dois sócios e vizinhos, que travam um conflito desde 2005, por causa da instalação da fábrica de celulose Botnia, vendida recentemente à UPM, ambas de capitais finlandeses, nas margens uruguaias do rio.

MARINA GUIMARÃES, Agencia Estado

15 de janeiro de 2010 | 13h34

Marcando uma diferença em relação a Tabaré Vázquez, o atual presidente do Uruguai, Mujica tenta recompor as relações, mas reconhece que o problema que dividiu os dois países ainda não pode ser solucionado. "Não há nenhuma solução na mão, mas temos vontade" de encontrar uma saída do conflito, afirmou. Após mais de uma hora de reunião com Cristina, acompanhado por sua esposa, a senadora Lucía Topolansky, Mujica ressaltou que é preciso "esperar o laudo da Corte de Haia", o Tribunal Internacional de Justiça.

Segundo ele, após o resultado de Haia, previsto para este ano, os problemas que envolvem o Rio Uruguai e seu entorno também vão estar na agenda da comissão que será formada. O curto circuito entre os dois países começou no fim de 2005, quando um grupo de ambientalistas da cidade argentina de Gualeguaychú bloquearam o trânsito da ponte internacional que a une ao Uruguai, em protesto contra a instalação da fábrica.

A fábrica de papel foi construída na cidade uruguaia de Fray Bentos, e os argentinos temem que a unidade contamine as águas do rio que compartilham com os vizinhos. A economia de Gualeguaychú depende do turismo, que é atraído pelas praias às margens do rio, especialmente no verão, quando a cidade oferece o único espetáculo de carnaval da Argentina, inspirado nos desfiles e escolas de samba do Brasil. Os moradores e ambientalistas da região mantêm a ponte bloqueada. Por causa desse bloqueio, o presidente Vázquez negou-se a negociar uma saída do conflito.

Marcando outra diferença com Vázquez, o presidente eleito em novembro passado evitou fazer comentários sobre o bloqueio da ponte. "Não nos corresponde dar opiniões sobre os problemas internos da República Argentina, o que sim nos corresponde é lutar para ter a melhor relação possível com qualquer que seja o governo que esteja no País e entre nossas respectivas sociedades", disse Mujica, que assumirá o governo em março de 2010.

Recentemente, Mujica reuniu-se com ambientalistas argentinos para tentar superar o conflito bilateral. Mas o presidente eleito preferiu não revelar detalhes sobre o encontro. O bloqueio da ponte provoca prejuízos aos uruguaios. No processo em tramitação no Tribunal Internacional, a Argentina argumenta que a construção da indústria foi autorizada de forma arbitrária por Montevidéu, o que violaria um tratado bilateral que se refere ao Rio Uruguai.

A expectativa é que a decisão do tribunal seja anunciada nos próximos meses. Há duas semanas, o grupo sueco-finlandês Stora Enso desistiu de construir outra indústria de pasta de celulose na mesma localidade uruguaia, depois que Mujica manifestou-se contrário à iniciativa.

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