REUTERS/Andres Stapff
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Uruguai quer produzir maconha que possa ser 'bem identificada'

De acordo com a Junta Nacional de Drogas, licitação que definirá empresas que cultivarão droga sob controle estatal está em fase final; venda em farmácias deve começar nos 'próximos meses'

O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2015 | 10h59

MONTEVIDÉU - O presidente da Junta Nacional de Drogas (JND) do Uruguai, Juan Andrés Roballo, disse na noite de quinta-feira, 30, que o país buscará produzir uma "variedade nacional" de maconha, controlada pelo Estado, que possa ser "bem identificada", da mesma forma que sua origem e processo, para a "tranquilidade" dos vizinhos da região e do mundo.

Após participar em Montevidéu de um ato de uma campanha de conscientização sobre o consumo de drogas, Roballo falou sobre a lei que regula a produção e a compra e venda de maconha, aprovada em dezembro de 2013 durante o mandato de José Mujica (2010-2015).

"Todo o Uruguai e todo o mundo está nos olhando por causa disto, não podemos fracassar" destacou Roballo.

O presidente da JND afirmou que os "compromissos que o país assumiu em instrumentos internacionais têm que ser respeitados", razão pela qual a produção nacional de maconha, controlada pelo Estado, deverá estar "bem identificada".

Neste sentido, Roballo se referiu ao processo de licitação que está sendo realizado para atribuir a produção de maconha a várias empresas, que posteriormente será vendida em farmácias, e destacou que esse processo se encontra na "etapa final".

Com relação à demora na implementação deste ponto da lei, Roballo comentou que "foi um processo difícil" e que estiveram "muito concentrados" em "blindar" todas as dificuldades que pudessem surgir durante a licitação.

A lei foi criada para regular a produção e a compra e venda de maconha como forma de acabar com o negócio do narcotráfico, e transformou o Uruguai em pioneiro neste enfoque da luta antidrogas.

Desde meados do ano passado está em andamento o cultivo doméstico, destinado a quem se registrar para plantar maconha em casa, assim como os chamados clubes de cannabis, uma espécie de cooperativa para o cultivo coletivo de um grupo limitado de pessoas.

Falta determinar ainda a venda em farmácias da maconha legal, produzida sob o controle do Estado.

Neste sentido, uma vez aprovadas as licitações, as empresas deverão instalar-se em um prédio - de propriedade do Estado - para plantar cannabis, que será vendida em farmácias que tenham obtido a permissão correspondente.

Roballo estimou que este processo de venda poderá estar em pleno funcionamento nos "próximos meses". 

Em processo. Um dos terrenos mais incertos é o do comércio de sementes, que não é proibido, embora ainda não seja regulamentado. Assim, a importação é feita, aproveitando-se de uma brecha jurídica.

"Poderíamos importar, se no exterior não fosse ilegal exportá-las", explica a presidente da Associação de Estudos do Cannabis (AECU), Laura Blanco.

Os anúncios de bancos de sementes se multiplicam, e é fácil encontrar quem as comercialize. Outra alternativa é comprar diretamente pela Internet.

De acordo com os cálculos da AECU, há no Uruguai aproximadamente 20.000 autocultivadores e cerca de 15 clubes de cultivo coletivo, que podem ter, cada um, até 99 plantas.

Ouro verde. Além desse tipo de comércio, os investidores mais ambiciosos pesquisam como tirar proveito do cânhamo não psicoativo, utilizado para produzir biocombustíveis, têxteis, alimentos e cosméticos.

O cultivo da fibra já está em curso.

O empresário brasileiro Fábio Bastos fará sua primeira colheita para janeiro de 2016, e os 40 hectares plantados - 20 para a produção de fibra e 20 para pesquisa de usos medicinais do cânhamo - já estão vendidos.

Sua marca, Sediña, foi criada há um ano com um investimento de 150.000 dólares e agora vale mais de cinco milhões, segundo Bastos, convencido de que esse mercado se estenderá aos países vizinhos. "Meu objetivo é ampliar o negócio para o Brasil, que é muito maior e tem ainda mais potencial de venda", disse.

Atualmente, sua empresa exporta para o Canadá e para a China, onde há um grupo dedicado à análise do mercado.

Outra de suas ambições é buscar remédios mais baratos para doenças como o câncer e a epilepsia. Por isso, metade de seu cultivo se destina à pesquisa do uso medicinal. Ele confidencia que se aliou a alguns dos maiores laboratórios e farmácias do Brasil, mas prefere não citar nomes.

Outra empresa pioneira no cultivo de cânhamo não recreativo, The Latin American Hemp Trading, planta experimentalmente desde 2010, buscando junto com o Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária (INIA) as variedades que melhor se adaptam ao solo e ao clima uruguaio.

"O desenvolvimento agora será comercial, para produzir fibra e grãos (alimentos) com o objetivo de exportar para o Hemisfério Norte", afirmou Fabrizio Giamberini, sócio-fundador da empresa, sobre um mercado difícil de quantificar, mas que tem tudo para ser promissor. / EFE e AFP

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