EFE/Ernesto Arias
EFE/Ernesto Arias

Uruguai rejeita asilo a ex-presidente peruano acusado de corrupção em caso Odebrecht

Presidente Tabaré Vázquez diz não haver provas de que o Alan García é perseguido politicamente e garante que 'três poderes do Estado operam de forma autônoma e livre no Peru'; chanceler peruano diz que ex-mandatário já deixou representação diplomática uruguaia

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 12h15
Atualizado 03 Dezembro 2018 | 21h03

MONTEVIDÉU - O governo do Uruguai rejeitou nesta segunda-feira, 3, o pedido de asilo do ex-presidente do Peru, Alan García, que buscou proteção no consulado uruguaio em Lima depois de um juiz reter seu passaporte na investigação sobre supostas propinas pagas pela construtora brasileira Odebrecht.

Ao negar a solicitação, o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, disse que não havia provas que respaldassem a alegação de García de que era perseguido politicamente pelo atual presidente peruano Martín Vizcarra.

A decisão tomada pelo presidente do Uruguai e pelo ministro de Relações Exteriores do país, Rodolfo Nin Novoa, teve como base "considerações estritamente jurídicas" e o extenso relatório enviado pelo governo peruano, de cerca de mil páginas.

Além disso, Vázquez indicou à imprensa, que "os três poderes do Estado operam de forma autônoma e livre no Peru, especialmente o Poder Judiciário". O presidente uruguaio também explicou que seu país estava obrigado por lei e tradição a conceder o refúgio político provisório a García até que decidisse definitivamente sobre a demanda.

O ministro de Relações Exteriores do Peru, Nestor Popolizio, disse que García já deixou a representação diplomática uruguaia em Lima. "Tenho a informação do embaixador (uruguaio) Carlos Barros que (Alan García) já se saiu da embaixada", disse Popolizio a uma rádio de Lima.

García, de 69 anos, pediu asilo na embaixada do Uruguai em 17 de novembro, depois que a justiça peruana proibiu sua saída do país por 18 meses, ampliando a investigação sobre supostas propinas pagas pela empresa brasileira Odebrecht para obter um contrato para construir uma linha do metrô de Lima em seu segundo mandato (2006-2011).

Líderes da oposição no Uruguai manifestaram apoio à decisão do presidente. "Foi uma boa decisão do governo negar asilo político para Alan García", escreveu no Twitter Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, de centro-direita, o aspirante à presidência mais relevante segundo as últimas pesquisas.

"Muito bem decidido, presidente Vázquez. Dar asilo ao ex-presidente Alan García, investigado pela Justiça independente de um país democrático por casos de corrupção, nunca deveria ter sido uma opção em uma República como a nossa, onde as leis estão acima de todos", expressou o liberal Ernesto Talvi, do também opositor Partido Colorado. 

Mais acusações

Na semana passada a procuradoria peruana abriu uma nova investigação contra García por supostas irregularidades em outra licitação pública.

Segundo o MP peruano, o então presidente peruano e outros 21 funcionários conspiraram para "facilitar" a vitória da empresa holandesa ATM Terminals na disputa pelo terminal norte do Porto de Callao, vizinho a Lima.

Pelo escândalo da Odebrecht no Peru também sendo investigados pela procuradoria os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), assim como a líder opositora Keiko Fujimori, que está em prisão preventiva há um mês.

Considerado um dos políticos mais hábeis do Peru, García vive um dos momentos mais difíceis de sua carreira política. O frustrado pedido de asilo é um “desastre” para ele, segundo o analista Fernando Tuesta. Ele lembra que esta é a primeira vez na carreira política de quatro décadas que o ex-presidente peruano está em apuros com a Justiça. 

García esteve quase desaparecido da cena política após sua derrota nas eleições presidenciais de 2016, nas quais buscava um terceiro mandato, mas obteve apenas 5% dos votos. No entanto, seu nome voltou às manchetes dos jornais após o pedido de asilo ao Uruguai. Pai de seis filhos de três relacionamentos diferentes, García vivia em Madri com sua atual mulher e seu filho mais novo. / EFE, Reuters e AFP

PARA ENTENDER

Depois do Brasil, o Peru é o país onde o escândalo da Odebrecht causou mais impacto. Os quatro últimos presidentes peruanos estão sendo investigados por ligações com propinas pagas pela Odebrecht em contratos de obras públicas. Segundo a procuradoria, a construtora está perto de fechar um acordo.  A Odebrecht admitiu ter pagado cerca de US$ 30 milhões em subornos para obter contratos e concordou em fornecer detalhes dos pagamentos aos procuradores, o que culminará em um acordo formal de admissão de culpa, para diminuir a exposição da empresa a riscos legais. O escritório da Odebrecht em Lima disse à agência Reuters que a empresa está envolvida em conversas para um acordo, mas não deu detalhes.

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