Mariana Greif/Reuters
Mariana Greif/Reuters

Uruguai resiste ao cerco do coronavírus

Com poucos casos e mortes, uruguaios veem Brasil e Argentina com contágio em alta

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 04h00

Depois de assistir ao início da pandemia do novo coronavírus na China e de ver o vírus se espalhar pela Europa, o Uruguai confirmou seus quatro primeiros casos da doença em uma sexta-feira 13. Um começo ameaçador para uma doença que prometia colocar de joelhos a América Latina.

Nas semanas e meses que se seguiram aos diagnósticos de 13 de março, o país de 3,4 milhões de habitantes conseguiu manter o vírus sob controle. Cravado entre o Brasil, que sofre o segundo pior surto do mundo, e a Argentina, onde as infecções estão aumentando (158 mil registros de infecção e 2,8 mil óbitos), o Uruguai registrou apenas 1.174 casos e 34 mortes – números muito baixos para quem testou amplamente sua população.

Em junho, o Uruguai tornou-se o primeiro país da região a reabrir praticamente todas as escolas públicas. É o único da América Latina de onde a União Europeia aceitará turistas e visitantes. Governantes e analistas creditam o relativo sucesso do Uruguai até agora à liderança estável e unida, um sistema nacional de saúde robusto e uma quarentena voluntária, mas ampla.

“Foi pedido às pessoas que elas desfrutassem de sua liberdade de forma responsável, ficando em casa”, disse o gastroenterologista Henry Cohen, de Montevidéu, que atua em um comitê de cientistas que aconselha o governo na pandemia.

Nas proximidades, o Paraguai obteve sucesso semelhante contra o coronavírus, relatando apenas 4.328 casos e 40 mortes. O vizinho Brasil, por outro lado, registrou mais de 2,4 milhões de casos e 86 mil mortes – perdendo apenas para os EUA. A Argentina, com menor densidade demográfica, confirmou cinco vezes mais casos per capita que o Paraguai e oito vezes mais que o Uruguai.

Guillermo Sequera, diretor da Vigilância Sanitária do Paraguai, diz que o fio comum nos países que obtiveram sucesso contra o coronavírus é uma ação precoce e vigorosa e uma ênfase em conquistar e manter a confiança da população.

O presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, tomou posse duas semanas antes de o país confirmar seus primeiros casos, fechar as fronteiras, escolas, espaços públicos e pedir às pessoas que se colocassem em quarentena. Os uruguaios com 65 anos ou mais foram obrigados a ficar isolados em casa.

Os líderes e autoridades de saúde pública do país acompanharam a pandemia se desenvolvendo na Ásia e na Europa e tiveram tempo para se preparar, de acordo com Cohen. Os políticos deixaram de lado suas diferenças e colocaram os cientistas para dar as respostas. “De 13 de março até o final de abril, a classe política no Uruguai fechou suas fileiras”, disse Daniel Chasquetti, cientista político e professor da Universidade da República. O país começou a reabrir com cuidado e o governo permitiu que bares, restaurantes e hotéis retomassem as operações.

Tranquilidade

“Percebo nas pessoas uma sensação de tranquilidade e serenidade, uma sensação de segurança e confiança”, disse Blanca Rodríguez, âncora veterana da TV uruguaia. “E as pessoas não querem perder isso.”

Uma série de casos na cidade de Rivera, na fronteira com o Brasil, e um mais recente na capital, Montevidéu, lembraram que os uruguaios devem permanecer vigilantes. Em Rivera, cidade contígua à brasileira Santana do Livramento, o movimento noturno na avenida principal é normal. Enquanto restaurantes estão abertos e jovens bebem nas calçadas do lado uruguaio, o comércio do lado brasileiro enfrenta restrições. Rivera, de 103 mil moradores, teve 65 casos e 3 mortes. Livramento, de 82 mil habitantes, registrou 192 casos e 4 mortes.

No Paraguai, também começando a reabrir, Sequera alerta para o cansaço da sociedade com relação ao distanciamento social. Recentemente, o país se assustou com um surto em uma prisão em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. “As coisas estão ficando mais difíceis”, disse Sequera. “Se olharmos para os dados mais recentes, o número de casos está aumentando. É um crescimento constante, embora não seja explosivo. /WP

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