Uruguaios decidem hoje se continuam ou interrompem projetos de Mujica

Uruguaios decidem hoje se continuam ou interrompem projetos de Mujica

Ex-presidente e candidato governista, Tabaré Vázquez, tem até 44% das intenções de voto, segundo pesquisas; em 2º lugar, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, de centro-direita, aparece nas sondagens com 33% da preferência dos eleitores

Ariel Palacios, Enviado especial/Montividéu

26 de outubro de 2014 | 05h00

Os uruguaios decidirão hoje, nas urnas, se desejam a continuidade ou a interrupção do projeto de governo da Frente Ampla (FA), coalizão de centro-esquerda que está no poder há dez anos. Seu candidato, o ex-presidente Tabaré Vázquez (2005-2010), de 74 anos, um socialista “light”, ocupa o primeiro lugar nas pesquisas de opinião pública, oscilando entre 42% e 44% das intenções de voto. 

Caso as pesquisas se confirmem, no entanto, a votação será insuficiente para obter a vitória no primeiro turno, o que exige uma maioria de 50% dos votos mais um. 

Tudo indica que no fim de novembro Vázquez terá de enfrentar no segundo turno Luis Lacalle Pou, de 41 anos, candidato do Partido Nacional, que hoje tem entre 29% e 33% dos votos, segundo as pesquisas.

O presidente José Mujica, no cargo desde 2010, quando sucedeu seu correligionário Vázquez, embora não possa disputar a reeleição presidencial (no Uruguai, a Constituição impede reeleições consecutivas), é candidato ao Senado.

Pepe, como é chamado popularmente o presidente, ostenta melhor imagem que Vázquez, já que conta com 56% de popularidade. Tudo indica que Mujica será o senador mais votado. Isso o colocará no segundo posto de comando do Senado, depois do vice-presidente da república, que é quem preside a Câmara Alta no Uruguai.

Analistas atribuem as dificuldades enfrentadas por Vázquez ao desgaste que o governo de centro-esquerda teve ao longo de dez anos no poder, embora o país tenha apresentado uma contínua recuperação econômica e um aumento do consumo sob a administração da FA. 

Nesse período, o país – graças a sua tradicional segurança jurídica – recebeu os maiores investimentos estrangeiros do último meio século. 

Decepção. Apesar da bonança, o governo de Mujica, que prometia uma virada à esquerda, foi uma administração moderada, o que incluiu o ressurgimento da proposta de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. 

Essa virada para o centro afastou os eleitores nostálgicos da esquerda tradicional.

O sociólogo argentino radicado no Uruguai e professor da Universidade ORT em Montevidéu Ricardo López Göttig disse ao Estado que “os dez anos de governo da Frente Ampla desgastaram essa força política, ao mesmo tempo em que surgiu a candidatura de Lacalle Pou, uma figura com um estilo novo de comunicação”. 

Analistas também destacam que Vázquez, que encerrou seu governo em 2010 com 70% de aprovação, acreditava até poucos meses atrás que uma nova vitória eleitoral seria fácil diante dos dois principais rivais, “relaxando” as estratégias de campanha e perdendo espaço. 

Congresso. Os uruguaios também definirão hoje a nova composição do Parlamento. As pesquisas indicam que a FA perderá a maioria que manteve em seus dois governos. “Será uma disputa cabeça a cabeça”, disse o diretor da consultoria Equipos Mori, Ignacio Zuasnábar. Nenhuma força política conseguiria o controle do Senado e da Câmara de Deputados sem fazer alianças. 

Maioridade. Em meio a um clima de polêmica pelo crescimento da criminalidade nos últimos anos, especialmente por parte da população adolescente, os uruguaios também votarão hoje para decidir sobre uma proposta de reforma constitucional que reduziria a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Os cientistas políticos destacam que essa é a mais acirrada disputa dos votos nos últimos 15 anos. As últimas pesquisas indicavam que a tendência do eleitorado era a de aprovar o projeto, mas com margem estreita. 

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Três partidos e um compositor de jingles

Uruguaio Gonzalo Moreira criou as melodias para as três principais campanhas à presidência

Ariel Palacios, ENVIADO ESPECIAL/MONTEVIDÉU

26 de outubro de 2014 | 05h00

Gonzalo Moreira é uma figura histórica na música popular uruguaia. Cantor e autor de músicas de resistência à ditadura militar (1973-1985) e de canções infantis, esse ex-integrante do Grupo Rumbos, transformou-se em um bem sucedido criador de jingles para empresas e políticos. 

Nestas eleições presidenciais, Moreira preparou, de forma simultânea, as melodias das canções pegajosas para as campanhas dos candidatos dos três maiores partidos políticos que seus militantes cantarolaram e assobiaram nos últimos dias. 

“O pessoal me diz que, seja lá qual for o resultado, a culpa é minha”, diz, gargalhando, em entrevista ao Estado.

Moreira defende que a Frente Ampla, que tenta eleger Tabaré Vázquez, “havia entrado em uma espécie de platô” e requeria um jingle com “mais energia”, que “convocasse o eleitorado”. Seu jingle é Que não se detenha, não deixe de sonhar.

Já para o Partido Nacional, do candidato Luis Lacalle Pou, ele preparou uma canção que estivesse de acordo com um candidato jovem que quer passar a imagem de moderno. “Por isso, me pediram uma melodia – a Somos hoje, somos agora – que quebrasse a estrutura tradicional, com algo de hip-hop”, explica. 

Para o Partido Colorado, ele preparou uma música “para um candidato que tinha de ser mais moderno, mas dando um toque folclórico”, diz, referindo-se a Pedro Bordaberry. Dessa forma, preparou a canção Vamos viver em paz, vamos sonhar acordados.

Sem exclusividade. “Cada um teve aquilo que quis e todos os candidatos estão satisfeitos. Não se queixam. Além disso, deixei claro a todos, logo de início, que não dava exclusividade para partido algum”, afirmou.

O compositor, que é o único ponto em comum entre os três partidos em disputa, acredita que conseguiu se “distanciar” e compor os jingles políticos para três partidos diferentes porque no Uruguai, atualmente, “não existem aqueles antagonismos passionais do passado”. 

Segundo Moreira, “esse é um trabalho profissional”. “Se tivesse composto simultaneamente para três partidos diferentes, na Argentina ou na Venezuela, meu corpo com certeza apareceria flutuando em um rio. A chance que tenho aqui é um sinal da civilidade do Uruguai.”

Moreira não comenta suas preferências eleitorais e recusa-se a revelar qual candidato terá seu voto na eleição de hoje. “Não digo mesmo em quem votarei”, explica. “O pessoal diz que sou de esquerda. Isso, por causa de minhas canções de protesto. Mas eu sou eu”, afirmou. 

“Quando a gente é jovem, tem várias crenças. No entanto, depois, quando crescemos, vemos que não é bem assim”, declarou o compositor.

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Mais uma vez na disputa

Tabaré Vázquez, candidato da Frente Ampla

Ariel Palacios, Enviado especial/Montividéu

26 de outubro de 2014 | 05h00

Cinco anos depois de entregar o poder a José Mujica, também da Frente Ampla, Tabaré Vázquez, com 74 anos, quer voltar à presidência. Os analistas o definem como um socialista “light” e “amigável com os mercados”. 

Durante seu governo, Vázquez se envolveu em várias polêmicas, causou controvérsia ao integrar um grupo regional de assessores do Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo considerado “imperialista” por diversos setores da Frente Ampla.

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Seguindo os passos do pai

Luiz Lacalle Pou,candidato do Partido Nacional

Ariel Palacios Enviado , Especial/Montividéu

26 de outubro de 2014 | 05h00

Luis Lacalle Pou nasceu em 1973. Quando tinha 5 anos, ele e a família, que pertencia ao Partido Nacional, escaparam de morrer envenenados. Quando era adolescente, seu pai, Luis Alberto Lacalle Herrera, foi eleito presidente do Uruguai. Na vida adulta, começou a trabalhar para o partido e foi eleito deputado em 2000. 

Ideologicamente de centro, sua campanha teve tom conciliador e a colaboração de ex-integrantes da Frente Ampla. Pou critica a lei de regulação da produção e comercialização da maconha. 

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O peso de um sobrenome

Pedro Bordaberry,candidato do Partido Colorado

Ariel Palacios, Enviado especial/Montivideu

26 de outubro de 2014 | 05h00

Bordaberry é um sobrenome complicado de ostentar, pois recorda o ditador civil Juan María Bordaberry (eleito em 1971 e marionete dos militares). Por esse motivo, o filho do ex-ditador, Pedro Bordaberry, grafou nos outdoors e adesivos, durante a campanha eleitoral, seu prenome em letras garrafais e o sobrenome, em miúdas.

 Pedro Bordaberry tornou-se a jovem estrela do Partido Colorado quando ocupou a pasta do turismo no governo de Jorge Batlle (2000- 2005). Com ele, o partido começou a ser renovado. 

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