Uruguaios usam honestidade para atrair investimentos

CENÁRIO: Ariel Palacios

O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h02

"O país do ano." Com esse título, a revista britânica The Economist definiu o Uruguai em 2013. A publicação elogiava o país - "modesto, mas audaz, liberal e amante da diversão" - pela aprovação de mudanças nas leis que permitiam casamentos entre pessoas do mesmo sexo, abortos, eutanásia e a regulação da produção e comércio da maconha.

Poucos anos antes, a revista já havia apontado o Uruguai como o único do continente na lista dos 28 do mundo que poderiam ser classificados como "democracia plena".

No ano passado, a organização Transparência Internacional colocou o Uruguai no posto de número 19 em um ranking dos países menos corruptos. No total, a lista tinha 177 nações. Na América Latina, o país ficou com o primeiro posto da lista, conquistando o lugar antes ocupado pelo Chile. Pelos critérios de avaliação, os uruguaios estariam em nível semelhante aos Estados Unidos, de acordo com a organização.

No critério de independência do Judiciário, o Uruguai fica em 28.º entre 142 países que integraram um ranking feito pela entidade no ano passado. Na avaliação da liberdade de imprensa, os uruguaios ficaram no 32.º posto num ranking que inclui 179 países.

"Não somos corruptos nem pedimos propina aos empresários", afirmou o presidente uruguaio, José Mujica, em maio - com sua costumeira informalidade e franqueza -, durante uma reunião com empresários americanos da Câmara de Comércio, em Washington.

As declarações foram encaradas nos Estados Unidos como uma tentativa de diferenciar o Uruguai dos países vizinhos, especialmente da Argentina ou do Brasil, onde frequentemente surgem novos escândalos de corrupção.

Mujica calcula que, até o fim de 2014, o Uruguai - país que tem apenas 3,5 milhões de habitantes - receberia US$ 3 bilhões em investimentos. A previsão para 2015 é de US$ 5 bilhões.

Em relatório publicado no ano passado sobre as possibilidades de investimentos no país, o Departamento de Estado americano elogiou os esforços do governo atual para "manter um ambiente favorável". Apesar de algumas ressalvas a respeito da lentidão do Judiciário, em alguns casos, o governo dos EUA manteve um tom de incentivo à injeção de capital no Uruguai.

Nicolás Herrera, ex-subsecretário de Economia do governo do presidente Luis Alberto Lacalle e negociador da dívida externa uruguaia no Plano Brady, afirmou em entrevista ao "Estado" que, desde a volta da democracia, em 1985, no Uruguai vigora um "verdadeiro estado de direito". "Aqui, a Justiça é independente e não existe corrupção judiciária. Isso assegura garantias aos investidores e empresários, independentemente de sua nacionalidade."

Segundo Herrera, no Uruguai, "não existe corrupção nos níveis altos da administração pública, nem no sistema político". "Os casos que surgem são isolados e de pequenas dimensões", afirma.

O ex-subsecretário avalia que o Uruguai é atraente "por suas normas e regras do jogo estáveis".

"Além disso, acrescentam-se as vantagens tributárias. Aqui, seria inimaginável algo como esses tributos verdadeiramente expropriatórios - e talvez até inconstitucionais -, como os aplicados na Argentina no setor agropecuário. Nosso país soube deixar de lado as tentações populistas que acabam custando caro aos empresários e aos trabalhadores."

A legislação uruguaia prevê a possibilidade de expropriações, mas determina claramente formas de pagamento de compensações justas à parte afetada pelo processo.

É CORRESPONDENTE EM BUENOS AIRES

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