Diego Guevara
Diego Guevara

Uso da Coronavac no Chile indica queda nas mortes, mas contágio segue em alta

Segundo o governo, o imunizante chinês apresentou um nível de proteção de 67% em pacientes sintomáticos, preveniu em até 80% as hospitalizações e em 80% o risco de morte

Rafael Carneiro, ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2021 | 20h08

SANTIAGO - O Chile já imunizou 47% de seus habitantes com as duas doses e se tornou uma das referências globais. A situação vem apresentando melhoras, embora o país esteja longe de superar a crise sanitária. A maioria da população, cerca de 80%, recebeu doses da Coronavac, uma proporção parecida com a brasileira, o que permite olhar para o caso chileno e projetar o futuro do Brasil em alguns meses.

“Já é possível ver um efeito da vacinação. Primeiro vimos uma diminuição no número de pacientes na UTI com mais de 70 anos, depois entre 60 e 70, e agora já observamos uma redução na internação de pacientes entre 50 e 60 anos. Ainda não se vê de forma clara uma queda entre os que têm entre 40 e 50”, relata Miguel O’ Ryan, infectologista da Universidad de Chile e integrante do comitê de vacinas do Ministério da Ciência e Tecnologia.

De acordo com os dados do governo, no último mês, a quantidade de pacientes com mais de 70 anos internados em UTIs caiu de 372 para 342. A queda mais acentuada se observa nos pacientes entre 60 e 70 anos: no dia 7 de abril, eram 783. Na sexta-feira, 667. Na faixa que vai dos 50 aos 59 anos, a queda teve início há 13 dias, com diminuição de pouco mais de 7%.

Em relação às mortes, nos últimos três meses houve uma queda de 20,84% na população com mais de 90 anos e de 4,35% para aqueles que têm de 80 a 89, que estão totalmente vacinados. Mas houve um pequeno aumento nos últimos sete dias nas faixas etárias 60-69 e 50-59, onde nem todos têm as duas doses, e entre os que têm menos de 39 anos.

Os chilenos começaram a aplicar a Coronavac no final de janeiro. Desde então, apenas 20% da população foi vacinada com doses da Pfizer/BioNTech e da AstraZeneca. Segundo o governo, o imunizante chinês apresentou um nível de proteção de 67% em pacientes sintomáticos, preveniu em até 80% as hospitalizações, em 89% as internações em UTI e em 80% o risco de morte. Esses índices só são atingidos 14 dias após a segunda dose.

O’Ryan diz que um dos aspectos positivos da Coronavac é a maneira como ela foi desenvolvida, através do vírus inativado. “Apesar de não ter um nível de proteção como o das outras vacinas, a Coronavac é eficiente e, além disso, causa poucos efeitos colaterais”, afirma.

Apesar do avanço, o Chile ainda tem um longo caminho pela frente. O país vem registrando mais de 6 mil novos casos por dia – no final de fevereiro era uma média de 3 mil novas infecções – , tem mais de 3 mil pessoas internadas e menos de 300 vagas em UTIs. Os especialistas não têm respostas certeiras. Eles dizem que um dos fatores que podem ter contribuído para a alta foi o excesso de confiança na rapidez da vacinação, o que teria causado um relaxamento nas medidas de proteção. A circulação de novas variantes também é apontada como agravante.

Acompanhada de sua filha e auxiliada por um andador, Godeliber Contreras caminha a passos lentos em direção ao mercadinho da esquina para comprar pão fresco. Desde o início de março, Contreras, de 85 anos, já sabe o que é estar vacinada e reforça a importância de se imunizar. “Eu não senti nada após as duas doses, como sempre, e acho que todos devem se vacinar porque estão expostos ao vírus, podem se contaminar e contaminar os outros”, disse.

Na última semana, o Chile imunizou pessoas de 40 a 45 anos e, na próxima semana será a vez da população entre 35 e 39 anos. A brasileira Rosi Guimarães, de 48 anos, completou sua imunização na sexta-feira. “Quando me vacinei, em abril, veio uma sensação de alívio e fiquei na expectativa pela segunda dose e de poder respirar um pouco mais tranquila. Ainda assim, nesse intervalo, eu continuei tomando todos os cuidados como se eu não tivesse sido vacinada.”

Nascida em Belo Horizonte, Rosi mora há sete anos com a família em Santiago e trabalha como produtora de conteúdo sobre atrações turísticas para o público brasileiro. Em 2020, as fronteiras do Chile ficaram fechadas durante oito meses, voltaram a abrir, em novembro, e fecharam de novo, em março. Dessa forma, ela viu o seu trabalho prejudicado e precisou se reinventar com outros tipos de publicações em suas plataformas. “A minha esperança é que a vacina chegue para todo mundo e a gente possa retomar o turismo aqui em Santiago”, afirmou.

Na família Guimarães, apenas Yasmim, de 16 anos, ainda não se vacinou. Cinco anos mais velho, o irmão, Arthur, já tem as suas duas doses garantidas. Apesar de o governo chileno não ter aberto a vacinação para sua faixa etária, o jovem de 21 anos possui um problema crônico no intestino e, como as pessoas com comorbidades têm prioridade na fila de vacinação, ele finalizou a sua imunização há poucas semanas. 

Estudante do quarto ano de engenharia na Universidade Católica do Chile, Arthur não mudou a sua rotina e pouco tem saído de casa, apesar de estar protegido contra o vírus.

Assim como as pessoas com comorbidades, os professores também são considerados um grupo prioritário no Chile e Diego Guevara, de 33 anos, pôde ser contemplado com a imunização antecipada.

Professor de história em uma escola bilíngue, ele voltou a dar aulas presencialmente na semana passada, pois Providencia, região da capital onde está situado o colégio, saiu da quarentena total. Mesmo assim, ele não deixou de lado as medidas de proteção e segue usando máscara, álcool em gel e fazendo o distanciamento necessário dos estudantes e professores. “Apesar de me sentir mais seguro após a vacina, os protocolos devem continuar sendo seguidos, afinal há muita gente que ainda não foi vacinada”, afirma. A escola onde ele trabalha adotou o método híbrido de ensino e, com isso, enquanto alguns alunos estão em sala, outros acompanham as aulas remotamente.

A meta do governo chileno é ter 80% da população vacinada até o fim do primeiro semestre. Para O’Ryan, a vacinação no Chile é eficaz. “Acredito que a experiência chilena possa servir como modelo para vários países,” Segundo ele, se não houver um pico de casos e mortes durante o inverno, a partir de agosto ou setembro será possível retomar ainda mais atividades econômicas.

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