Uso de carros segue orientação do EI 

Em 2014, um dos líderes do grupo pediu que os jovens radicais usassem qualquer meio para cometer atentados contra alvos ocidentais

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S. Paulo

15 Julho 2016 | 00h21

Se o ataque em Nice ainda não foi reivindicado, a forma em que foi operado é apontada por especialistas e autoridades como uma demonstração de que as células radicais estão seguindo uma orientação do Estado Islâmico em uma espécie de manual difundido em 2014. Nele, o grupo convocava seus combatentes a atacar não apenas com bombas, mas também com qualquer meio disponível, incluindo carros para atropelar pessoas.

Em setembro de 2014, um dos nomes mais conhecidos das autoridades ocidentais, Abou Mohamed al-Adnani, sugeria aos “soldados do califado” usar qualquer meio para matar, inclusive carros. “Se você não tiver como explodir uma bomba ou atirar, encontre outra forma para estar com um infiel francês ou americano e esmagar sua cabeça com uma pedra, com uma faca ou atropelando com um veículo”, dizia a mensagem. 

Outra orientação do EI, segundo o Departamento de Combate ao Terrorismo da ONU, é que os combatentes não viagem mais para o Oriente Médio e cometam atentados “em casa”. Com fronteiras cada vez mais controladas e com o grupo perdendo terreno, o EI teria mudado de forma radical a forma de atuar e concentrado suas atividades em criar terror nas cidades europeias. 

Num vídeo difundido nos últimos dias, um dos recrutadores franceses do EI pedia que os combatentes “rasguem suas passagens para a Turquia e encontrem armas em seus bairros”. O atentado de ontem, num dos locais preferidos do país para as férias de verão, seria uma escolha estratégica com forte caráter simbólico. A região de Alpes-Maritimes, onde se encontra a cidade portuária, é um dos principais berços da radicalização jihadista hoje na Europa e registra 7% dos casos identificados de pessoas que podem ameaçar a França. 

Em fevereiro de 2015, três militares haviam sido atacados por um homem com uma faca na cidade. No total, os serviços de inteligência apontam que 515 pessoas estavam sendo seguidas por suas tendências radicais em Nice, que é também considerada um dos principais locais de origem de combatentes franceses que partem para o Iraque e para Síria.

De Nice também vem um dos imãs mais radicais, que pregava o jihad era Omar Diaby, considerado responsável por ter recrutado pelo menos 40 pessoas para viajar para a Síria em 2013. As estimativas apontam que um total de 56 pessoas deixaram a região para se unir ao EI. Um caso chamou a atenção, quando 11 pessoas partiram para o Oriente Médio em um carro alugado. Eram todos da mesma família. 

Cinco das nove mesquitas fechadas na França por pregar o radicalismo estavam localizadas no departamento. A região ainda registrou 139 operações antiterroristas , 24 delas contra comerciantes. Vários estabelecimentos foram fechados. Um dos bares se chamava Al-Nusra, referência ao grupo islâmico na Síria. No local, pizzas eram chamadas de “camicase” e os kebabs eram batizados de “Kalashnikov”.

Ações. Diante deste cenário, as autoridades regionais mobilizaram professores, médicos, policiais, juízes e o serviço social da cidade para uma força-tarefa para tentar frear a radicalização. Com reuniões com pessoas que poderiam ser vulneráveis aos grupos terroristas, Nice achava que estava “estancando a hemorragia”. 

Uma das constatações feita em um documento oficial pelo prefeito de Alpes-Maritimes, Adolphe Colrat, ligava a radicalização ao “fracasso social”. No entanto, por cerca de 12 meses, as autoridades da região comemoravam o fato de terem conseguido evitar a saída de pessoas em direção à Síria. Entretanto, agora, descobrem que isso pode não ter sido uma vitória. 

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