Uso de redes de TV por Cristina bate recordes

Presidente argentina tem média de uma emissão obrigatória por semana neste ano; temas vão desde política até carne de porco

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h05

A seis meses da eleição que definirá seu sucessor, a presidente argentina, Cristina Kirchner, atingiu a média de uma aparição semanal em rede nacional de rádio e televisão. Foram 12 em 2015. O direito de parar a programação aberta para discursar está garantido no artigo 75 da Lei de Mídia "sempre que haja situações graves, excepcionais ou de transcendência institucional".

Este ano, Cristina inaugurou uma fábrica de cosméticos, da qual ganhou uma cesta de produtos para o cabelo. Celebrou uma nova unidade de produção de refrigerantes, enfatizando que em nenhum outro país se consome tanto essa iguaria - 137 litros por habitante. Sobre os projetos do governo, variou entre dados sobre vacinação, energia nuclear, saneamento básico e transporte público.

"O Executivo considera de transcendência institucional falar de vacinas ou inaugurar fábricas. O último item do artigo redigido é ambíguo e dá margem ao governo", avalia Henoch Aguiar, professor de comunicação da Universidade de Buenos Aires. "É a única maneira de mostrarmos as coisas positivas, que os telejornais não exibem", argumentou Cristina em uma das transmissões, na qual prometeu usar ainda mais o recurso em um discurso concluído com a frase "a Argentina não é uma república de bananas".

No ano passado, foram recordistas em comentários nas redes sociais duas transmissões. Numa, em julho, o rapper Mustafá Yoda cantou diante de Cristina os versos "os caminhos conduzem a Roma porque o mundo é imperialista, o ser humano se acha anarquista e o álcool o conquista. Resista". Na outra, em dezembro, a presidente felicitou os torcedores do Racing pelo título nacional - time de seu filho Máximo e do ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010, ano em que ela citou a carne de porco como afrodisíaca, outro "hit" na história das transmissões oficiais.

As emissões costumam ser mais protocolares. Em geral, começam com Cristina chamando um ministro que, após ser elogiado, explica o que está fazendo em certa região do país. Se sua tarefa é inaugurar uma fábrica, passa o microfone ao empresário, que faz a propaganda do negócio. Em seguida, um empregado agradece pela oportunidade de trabalho, se possível com um filho ao lado, que troca palavras com a presidente. "Na crise de 2001, tive de ir para o Uruguai. Agora, posso voltar a viver no meu país", disse um menino em fevereiro, arrancando aplausos dos grupos políticos levados até o local para figurar como claque. "Obrigado por nossa nova escola", disse uma menina em outra transmissão.

A razão formal pela qual uma rede é convocada raramente ganha os títulos do jornais locais. "O destaque são os comentários que a presidente faz sobre os fatos políticos. Seu objetivo é tocar cada tema de forma personalista", diz Aguiar. Segundo o especialista, Hugo Chávez fazia uso semelhante das redes oficiais, mas hoje não há países em que sejam tão frequentes.

Na transmissão de terça-feira - dia em que sindicatos de transportes pararam o país com uma greve -, Cristina tirou o assunto do noticiário no fim da tarde com a 11.ª rede nacional do ano. O motivo oficial era a inauguração de canos de esgoto em La Matanza, reduto kirchnerista na região metropolitana, mas o confronto com os sindicatos foi o tema central. "Não é uma greve com reivindicações operárias. É um ato opositor", reclamou a presidente.

As transmissões são anunciadas com algumas horas de antecedência - a exceção este ano foi o tradicional discurso de abertura do ano Legislativo, em 1.º de março. A frequência inédita das falas causa reclamações da oposição e dos meios de comunicação não alinhados ao governo, que perdem audiência. Um cálculo feito pelo site Urgente24.com sobre uma transmissão de outubro de 2012 estimava que 700 mil famílias saíram dos canais abertos ou desligaram a TV assim que a presidente começou a falar. Opositores ironizam dizendo que as falas de Cristina são uma das razões para o crescimento da procura pela TV a cabo no país.

"Falta controle sobre os dados apresentados, se são verdadeiros ou se a promessas feitas serão cumpridas", afirma Aguiar. A quantidade de números apresentados por Cristina em seus discursos é tão chamativa que sites dedicados a conferir as informações foram criados. O mais conhecido é o Chequeado.com, com cinco integrantes, administrado pela advogada e jornalista Laura Zommer. "A presidente usa muitos dados ao argumentar e nem sempre são verdadeiros. Nos chamam a atenção quando parecem mentira ou, pelo contrário, alguém nos adverte de que são verdadeiros, apesar de ninguém estar acreditando. Numa semana em que consideramos dados governistas verdadeiros, somos kirchneristas. Se confirmamos dados da oposição ou de jornais críticos, dizem que fomos comprados", disse Laura ao Estado.

Segundo Martín Becerra, professor da Universidade Nacional de Quilmes e doutor pela Universidade de Barcelona, uma das razões para o número excepcional de convocações este ano é que nem todas serviram para anúncio de obras ou benefícios. "Houve algumas mais intimistas, feitas em situações excepcionais. Nesse caso, Cristina dá sua visão dos fatos, como a morte do promotor Alberto Nisman, com a presidente em seu gabinete ou na sala da residência oficial", afirma.

"A repetição desse recurso é eleitoralmente útil para unir simpatizantes, militantes do projeto da presidente, mas ao mesmo tempo irrita o restante do eleitorado, que procura candidatos ou partidos da oposição", pondera. Procurada pelo Estado, a Autoridade Federal de Serviços de Comunicação (AFSCA), que avisa aos canais quando haverá rede obrigatória, respondeu por e-mail não saber quantas vezes o recurso foi usado nos últimos anos, sem detalhar se a informação não pode ser divulgada ou se perdeu a conta.

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