USP premia Mandela em evento com Graça Machel

Mulher do ex-presidente sul-africano recebe pelo marido título de doutor [br]honoris causa e fala sobre atuais desafios africanos

Carolina Rossetti, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

"Se Madiba estivesse aqui, diria com aquela voz gutural: thank you very much (muito obrigado)", brincou a ativista Graça Machel, tentando imitar a rouquidão do marido, o ex-presidente Sul-Africano Nelson Mandela. O agradecimento era pelo título de doutor honoris causa da Universidade de São Paulo (USP), concedido a Mandela em 2000, mas que Graça recebeu ontem em nome do histórico líder anti-apartheid.

"Será com muita emoção e honra que ele vai receber esse título. O maior desejo dele nesse momento é que a juventude continue as lutas justas para desenhar um futuro de igualdade ", garantiu Graça, de 65 anos, explicando que, por conta da saúde frágil de Mandela, hoje com 92 anos, geralmente cabe a ela fazer as honras do marido em viagens internacionais.

Em sua visita ao Brasil, Graça aproveitou ainda para abrir o I Seminário Internacional Centro Ruth Cardoso.

A atual mulher de Mandela ganhou fama em 1975, quando seu primeiro marido, Samora Machel, assumiu a presidência de Moçambique, após o país tornar-se independente de Portugal. "Tínhamos uma escolha: viver colonizados ou morrer livres".

Formada em Filologia da língua alemã pela Universidade de Lisboa, Graça, nascida na Província de Gaza, no sul de Moçambique, voltou ao país com 28 anos e ingressou na organização clandestina Frente de Libertação Moçambicana (Frelimo). Foi Ministra de Educação e Cultura entre 1975 e 1989, período em que concentrou esforços no combate ao analfabetismo, que atingia 93% da população.

"A educação é o meio de o povo chegar ao poder, por isso fizemos do país uma grande escola", diz ela, comentando como as instituições de ensino funcionavam em três turnos e como os operários das fábricas usavam o horário de almoço para estudar. "Sou filha de mãe analfabeta. Éramos pobres, mas minha mãe sempre me ensinou que não é a origem social que determina quem tu és, quem tu queres ser, nem quem tu poderás ser. Foi esse saber que fez com que meu destino fosse diferente do de outras meninas de minha geração"

Apesar de reconhecer os avanços das lutas pela igualdade de gênero, como o aumento da participação feminina da política - ela cita o caso de Ruanda como um "sucesso", por ter em seu Parlamento 56% de mulheres -, Graça diz que a emancipação da mulher é ainda um obstáculo na África e "condição fundamental para o triunfo do continente".

Presidente da ONG Fundação do Desenvolvimento das Comunidades, Graça entende que a melhoria dos padrões de vida das populações pobres está vinculada ao papel que a mulher na família.

"É preciso dar poder a mulheres e multiplicar as vozes que clamam por justiça social. No caso da aids, são elas as mais infectadas pelo vírus. É preciso transformar a consciência do homem africano para que tenha uma atitude diferente com suas parceiras".

Sobre o futuro econômico do continente, ela é confiante: "No momento da crise financeira, a economia africana conseguiu manter-se estável. A África não é mais a cicatriz na consciência da humanidade. Ela mudou para melhor".

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