Vá em frente, estrague o meu dia

Como diz o ditado: "Errar é humano, perdoar é divino". E gostaria de acrescentar: "ignorar" é ainda mais humano, e os resultados raramente divinos. Não seríamos humanos se não nos agarrássemos aos nossos desejos e não percebêssemos os fatos zombando de nossas esperanças. A política só muda quando o fosso se torna largo demais para que seja possível ignorá-lo. E é para lá que parte da política americana caminha no Oriente Médio.

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 Março 2015 | 02h01

Comecemos por Israel. O premiê Binyamin Netanyahu venceu as eleições, mas é difícil saber o que é mais deprimente: ele, que nos últimos dias apelou para salvar sua campanha, ou o fato de que isso aparentemente funcionou.

Na verdade, Netanyahu poderá voltar atrás amanhã. É como disse o colunista Nahum Barnea, do Yediot Ahronot: "É como se as promessas de Netanyahu fossem escritas no gelo num dia quente."

Na questão do Irã, supõe-se que se o presidente Barack Obama estivesse disposto a impor novas sanções, Teerã cederia. Não é apenas a história que zomba dessa ideia. Na brutalidade do Oriente Médio, a única coisa que chama a atenção é a ameaça da força para a derrubada de um regime. Obama não tem tanta influência no caso do Irã.

A tática foi usada no Afeganistão e no Iraque, guerras que deixaram os EUA tão esgotados que, segundo o ex-secretário da Defesa Robert Gates, qualquer um no futuro que aconselhasse o presidente a enviar tropas ao Oriente Médio "deveria mandar examinar a própria cabeça".

Nenhum aconselhou. A geopolítica diz respeito à influência e estamos negociando com o Irã sem uma ameaça de força crível. Os aiatolás sabem disso. Assim, tenho certeza de que Obama tentará o melhor acordo possível. Mas um acordo realmente bom não está no cardápio.

No entanto, por que nós, pela primeira vez desde 11 de setembro de 2001, combatemos uma guerra em nome do Irã? Em 2002, destruímos o principal inimigo sunita do Irã no Afeganistão (o Taleban). Em 2003, o maior inimigo sunita do mundo árabe (Saddam Hussein). Mas, como não conseguimos criar uma ordem pluralista auto sustentada, para contrabalançar o Irã, criamos um vazio, tanto no Iraque quanto no mundo árabe sunita. É por isso que os grupos financiados por Teerã dominam quatro capitais: Beirute, Damasco, Sanaa e Bagdá.

Se parece que só temos péssimas opções no Oriente Médio e nada parece funcionar, há um motivo. O passado é o prólogo e deixou marcas tão terríveis na paisagem que será difícil ver alguma coisa saudável ou bela brotar dali no futuro próximo. Peço desculpas por ser tão deprimente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR E JORNALISTA

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