Vá para Cuba?!

Confesso que, toda vez que me mandaram ir para Cuba, considerei o convite. Iria sem titubear. Com o status de estrangeiro

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2016 | 05h00

“Vá para Cuba!” virou um destrato de saudosistas da Guerra Fria, que ainda acreditam na divisão do mundo em dois blocos – haters da polarização que identificam brasileiros de esquerda ou simpatizantes como “comunistas”. Quem era contra o impeachment de Dilma era a favor do regime de Cuba. Quem defende um Estado de Direito sem abuso do Judiciário é comunista. Confesso que, toda vez que me mandaram ir para Cuba, considerei o convite. Iria sem titubear. Com o status de estrangeiro.

No passado, Cuba era uma ilhota do Caribe e buscou ser o porto estratégico do Golfo do México. Até a Guerra Hispano-Americana, pilantragem armada pelos americanos, a transformar num puxadinho do seu quintal, que se estendeu até a Terra do Fogo e o Pacífico.

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Havana virou a Las Vegas tropical: desses locais em que a rígida educação vitoriana faz vistas grossas, como num pacto hedonista, para que um pouco de pecado numa terra de ninguém aliviasse as tensões de uma sociedade moralista. A capital virou bordel, cassino, paraíso da boemia, cercada por bananais e canaviais, num país comandado por fantoches sustentados pela máfia, FBI, Pentágono e Wall Street. 

Depois de Fidel, passou a sediar a melhor faculdade de cinema da América Latina (EICTV), o melhor festival de teatro, o melhor festival de cinema e a oferecer o mais importante prêmio literário (Prêmio Casa das Américas). Sua população ficou letrada, ávida por cultura e saudável. Escolas e universidades para todos. Hospitais de graça, com uma medicina preventiva de ponta que fez a fama. Sem contar que o país se transformou em uma potência olímpica.

O narcotráfico não aportou na ilha. Não havia violência urbana, porque acumular não fazia parte do repertório. A vida cultural de Havana se manteve vibrante. O Carnaval de Santiago de Cuba lembrava o brasileiro de décadas atrás. 

Era um socialismo sem o rigor da revolução industrial e as ruínas de grandes guerras. Um socialismo com mojito, salsa, boemia, praia, sensualidade, calor, alta cultura, sob a bênção dos atabaques do candomblé (santería). 

O cubano é o latino-americano mais parecido com o brasileiro. A livre miscigenação, o culto pela alegria, o humor, a sensualidade e a negritude parecem saídas do mesmo caldeirão da História, como o rum é irmão da cachaça. É, então, o paraíso?

O bloqueio comercial, aberração geopolítica para que o socialismo não desse certo, e o estado de alerta máximo contra o inimigo a 80 milhas – que conspirava e apoiava ditaduras e regimes fascistas em toda sua área de influência, quando não invadia diretamente as republiquetas vizinhas –, mais a paranoia de uma revolução permanente, de um partido único, que deu em presos políticos, fuzilamentos, exílios forçados, retirou a liberdade de expressão, de ir e vir e a alternância no poder, “frescuras democráticas” que apreciamos. 

Quando fui a Cuba, em 1987, convidado pelo Festival Internacional de Teatro, dei duas entrevistas. A ilha tinha apenas dois jornais influentes, Granma, jornal oficial do Partido Comunista, e Juventud Rebelde, jornal da juventude do Partido Comunista.

Andei sem problemas. Com amigos gays, curiosos diante de um regime que, dizia-se, os perseguia, encontramos o point numa praça onde eles, uma reconhecível juventude homossexual, se paqueravam. 

Comi muito bem nos hotéis com estrangeiros. Tentei comer uma pizza numa birosca popular, não consegui, em razão da fila enorme. Tomei o sorvete na Coppelia, depois de uma hora e meia na fila, em frente ao Hotel Havana Libre, ex-Hilton, na Calle L com Calle 22 (Havana, como Nova York, tem ruas com números e letras), inaugurado um ano antes da revolução pelo próprio Conrad Hilton e expropriado pelos revolucionários. 

Eu poderia furar a fila por ser estrangeiro, como me aconselharam em 1989 em Moscou. Me recusei. E me dizia: se todos os brasileiros tivessem a oportunidade de tomar um sorvete da Brunella, no coração do Jardim Europa, na época, o melhor de São Paulo, a fila também seria enorme.

Minha peça abriu o Festival de Teatro de La Habana no luxuoso Teatro Karl Marx para 8 mil pessoas. Lotado. Encontrei pelas ruas artistas, escritores e intelectuais. Encontrei até Gabriel García Márquez passeando num parque, a quem tietei tirando fotos. Mas os amigos que fiz em Cuba, eu não os reencontraria. A eles, não era permitida a viagem ao Brasil. Viviam enclausurados numa falsa atmosfera de utopia revolucionária. 

Eu moraria com prazer em Cuba. Com o status de um escritor estrangeiro, como Hemingway (na primeira fase da Revolução). Já como cidadão...

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