"Vaca louca" põe em xeque modelo europeu

A vaca louca continua a semear o caos na Europa. Durante anos, suas proezas atingiram um ou outro país. Um intermitente "perigo" se acendeu na Grã-Bretanha, e depois em volta da França. Hoje, todos os países foram atingidos pelo ciclone: Itália, Alemanha, Espanha, Áustria, etc. Em toda parte, descobre-se uma vaca louca e são abatidos rebanhos inteiros, os consumidores não querem mais comer carne de vaca, os açougueiros abrem falência e a produção de carne degringola-se. De repente, a vaca louca mudou de status: ainda ontem, a vaca era um animal que vivia em uma pradaria do Charolais, em um estábulo de Sussex, ou em um pasto da planície do Pó. A vaca não via "um dedo a mais na frente de seu nariz". Hoje, tudo mudou: a vaca se dotou de uma consciência não mais nacional, mas "européia". Devido a essa doença (encefalopatia espongiforme bovina) toda a União Européia (UE) treme. Ela assiste, estupefata, à degradação e, talvez, à ruína do pilar que sempre serviu de espinha dorsal para a construção européia: a Política Agrícola Comum (PAC). As devastações cometidas pela vaca são tamanhas que os 15 ministros europeus da Agricultura reuniram-se nesta terça-feira em regime de urgência, em Bruxelas. E essa mesma Europa, que se recusou durante tantos anos a tomar medidas, toca hoje a sirene de alarme. A crise vai acabar com inúmeros empregos e impor aos governos auxílios financeiros insuportáveis, agravados também pela queda drástica do consumo. Algumas cifras: a margem de manobra do orçamento europeu agrícola é de 1,3 bilhão de euros por ano até 2006. Ora, considerando devastações devido à doença, a crise vai custar, a partir deste ano, 3 bilhões de euros ao orçamento europeu. No futuro, será pior: se o consumo baixar 10%, e as exportações, 40%, o custo para a União Européia será de 6,6 bilhões de euros em 2002. Se o consumo baixar 12%, a fatura para o orçamento europeu vai saltar para 8,7 bilhões de euros. É uma loucura! É preciso somar a isso todos os rasgos que milhares, milhões de vacas mortas, fazendas arruinadas, inúmeros fazendeiros indenizados, a destruição de enormes estoques de rações vão provocar no tecido social e econômico da Europa. A Europa está passando por sua prova mais brutal há muito tempo. E ainda mais perniciosa porque os diferentes membros da União têm agriculturas de estilo muito diferentes e cujos interesses se contrapõem. É de se prever cruéis batalhas entre os 15 membros. Enfim, a ruptura do pilar agrícola da UE levará a uma reflexão sobre o modelo escolhido pela PAC, há 15 anos. A PAC é, em parte responsável pela derrota: foi a União Européia que determinou a linha "produtivista" furiosa da agricultura européia. Essa visão "produtivista" levou ao impasse atual: foi para forçar, para acelerar seu desenvolvimento, aumentar o peso dos animais que se recorreu, maciçamente, às rações, e essas rações envenenaram os rebanhos. Tentou-se fazer da agricultura e do gado uma variedade das finanças e da indústria. E foram massacradas paisagens, foram destruídas antigas civilizações puras e tranqüilas, mataram-se milhões de bovinos, arruinaram-se camponeses e introduziu-se um perigoso vírus no próprio centro da construção européia.

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