Oli SCARFF / AFP
Oli SCARFF / AFP

'Vacinação deve ser obrigatória quando população não se imuniza', diz autoridade sanitária espanhola

Para o médico epidemiologista Fernando Simón, pandemia deixará aos países a lição de que saúde é uma questão a ser tratada coletivamente

Entrevista com

Fernando Simón, Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias do governo da Espanha

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 10h00
Atualizado 16 de novembro de 2021 | 14h10

BRASÍLIA - Desde 2012 à frente da unidade de coordenação de emergências sanitárias do governo da Espanha, o médico epidemiologista Fernando Simón tornou-se um rosto muito conhecido pelos espanhóis durante a pandemia de covid-19. Chefe da equipe que aponta as diretrizes técnicas do enfrentamento à doença, é ele quem vai à TV anunciar os números da tragédia e pedir a colaboração dos compatriotas com medidas duras de prevenção.

O mesmo destaque que rende aplausos e “selfies” de populares lhe tragou para o meio da disputa política em Madri, em especial entre o presidente socialista Pedro Sánchez e líderes da direita, como a governadora Isabel Ayuso. O enredo é semelhante àquele que ficou saturado no Brasil: restrições duras são criticadas por suposto atentado às liberdades individuais, e reina o descompasso entre “vidas, liberdade e empregos”.

O currículo de Simón, entretanto, o credencia como uma das maiores autoridades sanitárias da Espanha e da Europa. Estava na mesma função de diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias na crise do ebola, em 2014, no governo do conservador Mariano Rajoy. Também já trabalhou em países da América do Sul e em Moçambique.

Partiram da equipe dele as informações que embasaram os dois “estados de alarme” decretado pelo governo para conter o avanço do novo coronavírus. Hoje, o País tem quase 80% da população vacinada com duas doses e é um dos com a imunização mais avançada -- o Brasil tem 58%. Máscaras seguem sendo obrigatórias em lugares fechados e quando não é possível manter uma distância segura em locais abertos.

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Fernando Simón diz que o relaxamento das medidas deve acontecer com base em estudos sobre seus impactos. Ele atribui o êxito da vacinação dos espanhóis à mensagem clara de que apenas por meio da imunização o mundo poderia superar a crise. O epidemiologista também aponta que a covid deixará aos Países a lição de que saúde é uma questão a ser tratada coletivamente. “Os problemas de saúde pública não são problema do setor sanitário, são problema de todos”, diz.

Hoje são quase 80% dos espanhóis vacinados com as duas doses, mais do que em Países como os Estados Unidos. Como chegaram a esse nível?

São 80% da população e 90% da população alvo. A alta cobertura era esperada. Geralmente, é muito mais alta do que nos Estados Unidos, por exemplo. É uma questão de educação, do tipo de população que temos, de solidariedade. Os jovens têm muito incorporada a questão da proteção aos idosos, isso tem ajudado a elevar a taxa. Países como Espanha, Portugal (87%) e Itália (72%) são os que têm vacinação mais avançada. São os países mais latinos, diferente dos do Norte, mais individualistas. Também é verdade que desde o primeiro dia da pandemia uma das mensagens lançadas para a população é a de que poderíamos tentar controlar o avanço do vírus com as medidas não farmacológicas que tínhamos à mão, mas que não sairíamos dessa até ter as vacinas. Tudo isso ficou bem gravado na mente das pessoas.

Os movimentos antivacina não atrapalham?

Não têm um impacto importante na Espanha. Se nós, técnicos, não pudermos explicar as coisas bem explicadinhas, a população vai ter dúvida. Mas entre os contra a vacina tem gente a quem falta informação ou simplesmente tem dificuldade para acessar centros de vacinação. À parte, tem aqueles com outras percepções de mundo e de ciência. São poucos. Na Espanha, trabalhamos muito para explicar o que era a vacina.

Como se deu essa explicação?

Fizemos muito esforço para explicar bem o que é a vacina, para facilitar o acesso. Quase todas as regiões fizeram contato direto, seja por WhatsAapp, telefone, email, com cada pessoa, para informar dia e hora da vacinação.

O senhor tem dito que obrigar a vacinação não é necessário em algumas circunstâncias. Em quais cenários deve haver ou não essa obrigação?

Na Espanha, nenhuma vacina é obrigatória e ainda assim temos coberturas muito boas. Quando se cria uma coisa obrigatória sem ser necessário, o que está se fazendo é criando uma opinião e uma opinião contrária. É criar a opinião de que "o governo está forçando a vacinação”. Na Espanha não temos a necessidade. É verdade que há países onde ainda há uma incidência muito alta do vírus, com muitas pessoas vulneráveis morrendo, e a população tem acesso à vacinação e não se vacina. Nessas situações, para mim faz sentido os ministérios da Saúde proporem a obrigação. Tem situações em que o benefício público é tão enorme que pode ser necessário.

Quando o mundo vai poder parar de usar máscaras, inclusive nos ambientes internos?

A situação é muito diferente nos diferentes países. Não temos vacinas para toda a população do mundo. Para que no mundo inteiro se fale que não são necessárias as máscaras temos que ter mais gente vacinada. E temos que aprender que as máscaras são uma ferramenta de controle de doenças respiratórias. Nos ambientes internos, o fim do uso depende muito do nível da vacinação. Na Espanha estamos começando a pensar em relaxar em ambientes internos. Temos que perceber como as coisas evoluem. Estamos ainda aprendendo. Não podemos passar de máscaras, confinamento, higiene para zero, retirar tudo. Temos que tirar uma medida e ver como ela impacta, para depois ir prosseguindo com as demais.

Quando o senhor estima que voltaremos àquela normalidade pré-pandêmica?

Queremos voltar a ela? O que não queremos é essa vida pandêmica. O que aconteceu foi muito triste, mas aprendemos algumas coisas. Podemos ter uma vida com algumas coisas diferentes do que fazíamos antes. Claro que temos que voltar a uma vida parecida, mas aprendemos que em muitas profissões, por exemplo, o teletrabalho é possível. Podemos usar máscaras quando alguém estiver doente. O mundo está evoluindo, por que não evoluir com ele?

As economias ficaram prejudicadas. Muita gente perdeu o emprego, no Brasil ou na Europa. Com o conhecimento que se tem hoje, era possível cuidar dos problemas econômicos e sanitários ao mesmo tempo?

No futuro talvez consigamos fazer o controle de doenças com impacto econômico um pouco menor. O que fizemos no ano passado era o que tínhamos que fazer, não tínhamos opção. Aprendemos que mesmo quando tínhamos tecnologias muito boas para usar nos sistemas de vigilância, controles, aviões... ainda não usávamos tudo o que podíamos. Agora, sim, de verdade, estamos entrando no século XXI. Se tivermos outra pandemia daqui a alguns anos possivelmente poderemos fazer que impacto seja menor na economia e na saúde das pessoas.

A política de confinamento era a única saída?

Naquele momento, sim. E o confinamento não é as pessoas ficarem sempre em casa. O problema é como implementar essas medidas. Se a pessoa está no campo, sozinha, não tem por que ficar em casa. Mas o controle estava sendo feito por profissionais da segurança. Eles teriam que saber quando alguém pode sair ou não. E como fazem isso? É difícil. Se colocamos muitas exceções, ao final acaba sendo uma decisão final de cada um, o que também não é bom. O confinamento foi possivelmente um pouquinho mais duro do que podia ser, mas era a única possibilidade de não ter injustiças na aplicação do confinamento. Tínhamos que fazer uma ação com impacto rápido e muito eficaz em casos graves para evitar o colapso com o conhecimento que tínhamos.

O senhor é um médico, um técnico, e se tornou uma celebridade. Também foi muito criticado. Por que e como conseguiu se manter como porta-voz da crise?

Era o meu trabalho. Tive muitas críticas de alguns grupos, mas a maior parte da população entendeu. Tivemos um problema muito grande porque muitas pessoas perderam trabalho, morreram. Algumas são razoáveis, conseguem entender o que aconteceu, entendem como viver esse período de dor. Outras têm necessidade de procurar alguém para responsabilizar. Eu aceito. Eu era a pessoa visível. Outros criticavam por briga política. Eu ficava no meio e recebia as bofetadas. Alguns foram muito injustos. Foi duro, mas conseguimos que quase todos os responsáveis e porta-vozes ficassem. Tivemos que trabalhar muito a parte psicológica dos trabalhadores, falar muito entre nós, fazer muita catarse.

Como é a linha de comando? Como o senhor leva as recomendações a quem decide?

Temos capacidade propositiva. Um “estado de alarme” é uma decisão muito dura, nosso sistema administrativo desaparece. Eu não sei como tem que implementar o controle da população. A nossa recomendação é limitar interações entre as pessoas a tal nível, alto ou baixo. É o conselho de ministros que decide. O presidente era o decisor final, com o ministério da saúde e mais três ministérios principais, o da defesa, o do interior e o do transporte.

A última palavra é sempre política.

Sempre. Estamos lá, mas não fomos eleitos. Os que têm que tomar as decisões são os eleitos pelo povo.

Mas o que pensava quando o senhor dizia que confinamentos maiores eram melhores e o ministro preferia os mais curtos?

Não disse que os maiores eram melhores. Disse que em tal período é necessário confinamento e em tal período podemos relaxar. A verdade é que tínhamos diferentes... o confinamento implicou que a maior parte dos ministérios e dos conselheiros de diferentes setores nas comunidades autônomas deixaram de ter trabalho. O trabalho do ministério dos transportes é fazer com que a população se mova mais, mais barato, mais contente e com melhores meios. De um dia para outro, estávamos dizendo que esse trabalho devia parar.

Como foi apresentar a necessidade de medida drástica ao presidente?

Apresentei ao presidente os dados, os riscos de colapso, toda a situação. Me senti acanhado. Depois de pensar uns segundos o presidente disse: ‘bem, vamos fazer o estado de alarme’. Senti como se alguém tivesse colocado 200 quilos nas minhas costas. Um técnico normal chega ali, diz umas coisas e fecha-se o País. Se eu senti isso, não quero pensar o que sentiu o presidente, que foi quem tomou a decisão. Pode-se estar de acordo ou não com diferentes políticos e governos, mas é legítimo reconhecer as capacidades de tomarem as decisões que tomaram para evitar muitas mortes.

O que os sistemas públicos de saúde podem aprender com esta pandemia?

Todos pensamos que temos um sistema sanitário. A verdade é que temos três. Um hospitalar mais especializado, a atenção primária e um sistema de saúde pública. Se, na teoria, vão todos juntos, a verdade é que não vão. Para o futuro, temos que fazer os médicos dos hospitais e da atenção primária perceberem que tudo tem muito a ver com a saúde de toda a população, mesmo se estão vendo um só doente. Não falamos o suficiente entre nós. Todos querem ter trabalhos separados. Outra coisa é usarmos as ferramentas tecnológicas que não usamos. Temos que aprender a interpretar os dados mais rapidamente com mais qualidade. E temos que perceber que problemas de saúde pública não são problema do setor sanitário, são problema de todos. 

A equipe do senhor buscou experiências de combate à covid em diversos Países. O que pensou quando viu as estratégias usadas pelo Brasil?

Os países da Europa foram afetados primeiro. Durante muito tempo, os Países olhavam para lá para aprender. Depois, todos os países tinham experiências a compartilhar. Começamos a acompanhar o Brasil desde fevereiro de 2020, antes do primeiro caso. Assim como Argentina, Chile e outros. Do Brasil, aprendemos coisas boas e também coisas ruins. Se um país fez algo que não deu o resultado esperado, aprendemos que não era para fazer. Se fez e deu certo, poderíamos adaptar.

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