Vácuo de poder fortalece militantes no Oriente Médio

Por trás disso está a rivalidade entre duas potências do petróleo, Irã e Arábia Saudita, que lançam mão de uma cínica pauta sectária

Ben Hubbard, Robert F. Worth e Michael R. Gordon, The New York Times/O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2014 | 02h04

As imagens dos últimos dias trazem uma estranha familiaridade, como se os horrores da década passada fossem exibidos novamente: atiradores mascarados recapturando as cidades iraquianas de Faluja e Ramadi, pelas quais tantos soldados americanos deram a vida. Carros-bomba explodindo em meio à elegância do centro de Beirute. A matança da guerra civil síria cada vez pior.

Apesar dos ecos, o banho de sangue que tomou conta do Iraque, do Líbano e da Síria nas duas últimas semanas expõe algo novo e desestabilizador: o surgimento de um Oriente Médio pós-americano, no qual nenhum dos envolvidos tem o poder - ou a vontade - de conter o ódio sectário da região.

Em meio a esse vácuo, os fanáticos islâmicos prosperaram no Iraque e na Síria sob a bandeira da Al-Qaeda, conforme os conflitos nesses dois países amplificam um ao outro e fomentam um radicalismo cada vez mais profundo. Por trás disso está, em boa medida, a amarga rivalidade entre duas potências do petróleo, Irã e Arábia Saudita, cujos governantes - que dizem representar xiitas e sunitas, respectivamente - lançam mão de uma cínica pauta sectária que torna todo tipo de acordo algo próximo da heresia.

A toada da violência nas semanas mais recentes ameaça trazer de volta o pior da guerra civil iraquiana iniciada pela invasão americana, que consumiu bilhões de dólares e milhares de vidas de soldados até ser encerrada.

Com a possível retirada das forças americanas no Afeganistão este ano, muitos temem que um movimento de insurgência se aprofunde também naquele país, reduzindo a cinzas mais um esforço de construção nacional promovido pelos Estados Unidos.

O governo Obama defende seu histórico de envolvimento na região, destacando os esforços para solucionar a crise nuclear iraniana e a disputa envolvendo o território palestino, mas seus representantes reconhecem que há limites. Combatentes filiados à Al-Qaeda recapturaram território iraquiano pela primeira vez desde a retirada dos soldados americanos em 2011. Nos últimos dias, eles conquistaram partes de duas das maiores cidades da Província de Anbar, onde o governo - descrito pelos combatentes como fantoche do Irã xiita - luta para manter alguma aparência de ordem.

O Líbano foi palco de dois mortíferos carros-bomba e um dos ataques matou um político aliado dos EUA. Na Síria, a violência se intensificou, com centenas de civis mortos por bombas lançadas contra casas e mercados. Todo esse caos tem como fator comum um apelo cada vez mais explícito às atávicas lealdades de clã e seita. A imposição de pautas por parte de potências estrangeiras e o recurso a Estados policiais escolhido como tática pelos déspotas árabes nunca permitiram que essas comunidades resolvessem suas antigas inimizades. Mas tais divisões, normalmente benignas em tempos de paz, se tornaram mais tóxicas desde a revolução iraniana de 1979. Os acontecimentos dos últimos anos aceleraram essa tendência, conforme as invasões estrangeiras e a recente rodada de levantes árabes deixaram o Estado enfraquecido, as fronteiras pouco claras e a população buscando segurança sob outras lealdades.

Líderes árabes estão mais agressivos na tentativa de preencher o vácuo deixado pelos EUA e outras potências ocidentais conforme se alinham de acordo com seitas e interesses em comum. A promessa feita pelo governo saudita de oferecer US$ 3 bilhões ao Exército do Líbano é uma tentativa ousada de reafirmar sua influência num país em que o Irã há muito atua por meio de um aliado, o Hezbollah, movimento xiita que recebe dinheiro e armas da república islâmica.

A promessa saudita foi feita após o assassinato de Mohamed B. Chatah, figura política ligada aos sauditas, na explosão de um carro-bomba que teria sido preparado pelo governo sírio ou seus aliados iranianos e libaneses, todos aliados nessa guerra civil.

Irã e Arábia Saudita ampliaram seus esforços para armar e recrutar combatentes na guerra civil da Síria, retratada pelos altos representantes de ambos os países como um conflito existencial. Os muçulmanos sunitas de Egito, Líbia, Tunísia, Arábia Saudita e outros países se juntaram aos rebeldes, muitas vezes combatendo ao lado de organizações filiadas à Al-Qaeda. E os xiitas de Bahrein, Líbano, Iêmen e até da África estão lutando ao lado das milícias aliadas ao governo, temendo que a derrota do presidente sírio Bashar Assad possa prejudicar seus irmãos xiitas em outros lugares.

Alguns combatentes xiitas são treinados no Irã ou no Líbano antes de ser mandados à Síria - e muitos recebem um salário, com alojamento e refeições pagas por doações feitas pelas comunidades xiitas de fora da Síria.

Embora o governo saudita tenha combatido a Al-Qaeda dez anos atrás, o reino agora apoia rebeldes islâmicos na Síria que, com frequência, lutam ao lado de grupos ligados à Al-Qaeda, como a Frente Al-Nusra. Os sauditas dizem não ter escolha: depois de pressionar (sem sucesso) por uma intervenção decisiva dos EUA na Síria, eles acreditam que devem apoiar quem possa ajudá-los a derrotar as forças de Assad e seus aliados iranianos.

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