AP Photo/Eric Murinzi
AP Photo/Eric Murinzi

Valas comuns descobertas em Ruanda podem conter mais de 2 mil corpos do genocídio de 1994

Mais de 800 mil pessoas foram mortas à época por extremistas hutus; país ainda se recupera do massacre

O Estado de S.Paulo

26 Abril 2018 | 11h13

KIGALI, RUANDA - Autoridades ruandenses descobriram valas comuns que podem conter mais de 2 mil corpos do genocídio no país. A descoberta neste mês é significativa para Ruanda, que ainda se recupera do massacre de 1994, que deixou mais de 800 mil mortos em cerca de cem dias.

Alguns ruandenses ficaram chocados com o fato de os moradores do distrito de Gasabo, nos arredores da capital, onde as valas foram encontradas, terem mantido o silêncio sobre o assunto por tantos anos. "Aqueles que participaram do assassinato de nossos parentes não querem dizer onde os enterraram. Como você pode se conciliar com essas pessoas?", questionou France Mukanagazwa. Ela disse que perdeu o pai e outros parentes no genocídio e acredita que seus corpos estão entre os recém-encontrados.

A descoberta das valas aconteceu poucos dias depois de o país completar 24 anos desde os assassinatos em massa cometidos por extremistas hutus contra tutsis e hutus moderados. "É muito preocupante que de vez em quando valas comuns sejam descobertas, cujos perpetradores, agora livres, nunca se importaram em revelar às famílias em luto", disse o editorial do jornal ruandense The New Times.

Estima-se que entre 2 mil e 3 mil pessoas estejam enterradas nas valas. O cálculo é feito com base no número de moradores da área que desapareceram durante o genocídio, explicou Rashid Rwigamba, funcionário da ONG Ibuka, que ampara famílias das vítimas de 1994.

A informação que levou à descoberta veio do dono de um terreno que inicialmente se recusou a responder perguntas sobre as supostas valas comuns até ser ameaçado de prisão, afirmou Rwigamba. Ele contou que casas e banheiros construídos em cima dos túmulos foram demolidos para permitir a busca.

"A investigação está em andamento e identificamos outra casa que suspeitamos ter sido construída num terreno onde vítimas foram enterradas", afirmou. Segundo ele, foram encontrados até corpos de bebês. Até o momento, pelo menos 207 corpos foram exumados de uma vala e 156 de outra, segundo outro funcionário da Ibuka, Theogen Kabagambire.

Ainda não foi definido o que será feito com os corpos ou com o local das escavações. Moradores da região disseram que um bloqueio rodoviário foi montado a poucos metros das valas. As autoridades iniciaram investigações e, segundo Kabagambire, as pessoas que participaram dos assassinatos serão processadas. / AP

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