Vale imaginar um Oriente Médio sem arma nuclear

As ameaças que levaram Israel a construir sua bomba já não existem e o Exército israelense tem muito mais capacidade que todos seus vizinhos juntos

WALTER, PINCUS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2015 | 02h03

Que tal se Israel mudasse subitamente de curso e anunciasse que está preparado para assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e trabalhar para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio? Não estou dizendo que isso esteja em preparação. Longe disso.

No momento em que as negociações entre os EUA, outras cinco potências mundiais e o Irã caminham para uma espécie de desfecho, é visível que seja qual for o conteúdo do acordo haverá uma disputa nos EUA sobre seus méritos. E se o acordo sobreviver, os próximos anos inevitavelmente verão alegações de que um lado ou outro violou seus termos.

Este pareceu um bom momento para meditar na pergunta, "o que ocorreria se?", que também foi provocada pela releitura de um trecho do livro de 2013 do colunista israelense Ari Shavit, My Promised Land, The Triumph and Tragedy of Israel (Minha terra prometida, o triunfo e a tragédia de Israel, em tradução livre). Shavit descreveu brevemente a história do programa nuclear israelense.

Citando tanto o Holocausto como a mentalidade de sítio por estar rodeado por exércitos árabes ameaçadores, o governo israelense nos anos 50, liderado pelo premiê David Ben Gurion, se sentiu "no direito moral de adquirir uma opção nuclear", escreveu Shavit.

Em 1967, em seu complexo de Dimona, no deserto do Neguev, Israel havia desenvolvido a capacidade para montar seu primeiro artefato, embora não o reconheça publicamente.

"Dimona deu a Israel meio século de relativa segurança", segundo Shavit, mas e agora? No livro, ele escreve: "A hegemonia nuclear de Israel no Oriente Médio está chegando ao fim. Cedo ou tarde, o monopólio israelense será rompido".

Ele lembra de uma conversa em 2009 com um veterano de Dimona cujo nome não sabe, mas que desde então foi identificado como Yosef Tulipman, diretor-geral em Dimona de 1965 a 1973.

Shavit nota que os iranianos vêm fazendo o que Israel fez, construindo mini-Dimonas em Natanz (uma usina de enriquecimento de urânio) e Parchin (um complexo militar). Ele acrescenta que se o Irã conseguir, Arábia Saudita, Egito, Turquia e Argélia poderiam ser os próximos.

"Todos eles acreditam que se (Israel) tem o direito à nossa Dimona, eles têm o direito às deles. E quando outras nações do Oriente Médio exercerem seus direitos, nossa Dimona se transformará de uma bênção numa maldição", escreve Shavit.

Esse pensamento me fez perceber como seria diferente se Israel, em vez de se opor a um acordo com o Irã e pedir novas sanções econômicas contra o país e ameaçasse realizar um ataque a instalações nucleares de Teerã, direcionasse sua energia para desenvolver uma opção racional ao TNP.

A África do Sul pode servir de exemplo. Seu governo de apartheid - isolado de outros países em parte por causa de seus programas nucleares - havia desenvolvido o enriquecimento de urânio nos anos 70. Em fins dos anos 80, a África do Sul havia testado e construído pelo menos seis ogivas.

Mas o presidente recém-eleito Frederick de Klerk, da África do Sul, decidiu assinar o TNP em setembro de 1990, mas somente se outros países africanos o fizessem. Seguiram-se negociações e, em junho de 1991, quando o gabinete sul-africano concordou em assinar o tratado, o chanceler Roelof "Pik" Botha disse à imprensa: "Essa é nossa maneira de contribuir para a criação de uma zona livre de armas nucleares no sul da África". No começo de setembro de 1991, o urânio enriquecido da África do Sul havia sido retirado das armas e armazenado. A primeira equipe de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) chegou dois meses depois para garantir que as salvaguardas estavam sendo cumpridas.

Outros três anos se passaram até a destruição final dos componentes não nucleares e uma declaração da AIEA de que as instalações de armas nucleares da África do Sul haviam sido desmanteladas.

Nesse ínterim, um grupo de especialistas sob tutela da ONU havia começado a esboçar um tratado criando uma zona livre de armas nucleares na África. Ela demorou anos, mas entrou em vigor em 2009.

Seria um milagre os líderes de Israel seguirem esse caminho. Em abril de 2010, quando o presidente Barack Obama conclamou todos os países, incluindo Israel, a aderirem ao TNP, o então ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse que não havia pressão para tal medida enquanto o Irã, um signatário do TNP, continuasse sendo uma "ameaça".

A ameaça a Israel que levou à criação de sua bomba - exércitos árabes devastadores - já não existe. As Forças de Defesa de Israel têm muito mais capacidade convencional do que todos os vizinhos do país juntos, incluindo o Irã.

Portanto, a melhor maneira de eliminar a ameaça nuclear do Irã é criar um zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. Ela está na agenda da ONU desde os anos 60 e foi tema de várias resoluções da Assembleia-Geral.

Ela foi regularmente discutida em conferências da AIEA que reavaliam o TNP a cada cinco anos. Na conferência de 2010, EUA, Rússia e Grã-Bretanha concordaram com a realização de uma conferência regional em 2012 para discutir essa zona. Ela foi adiada, segundo os EUA, por falta de acordo entre participantes sobre "condições aceitáveis" para a conferência. Nos bastidores, reportou-se que Israel não havia concordado em comparecer e o Irã, embora dizendo que compareceria, acrescentou que não se envolveria com os israelenses se eles comparecessem.

Em setembro de 2013, o novo presidente do Irã, Hassan Rohani, compareceu à Assembleia-Geral e conclamou Israel a aderir ao TNP.

Infelizmente, isso não ocorreu nem vai ocorrer. O que temo é uma das conclusões mais deprimentes de Shavit: o sucesso de armas nucleares de Dimona "que permitiu que Israel prosperasse, se tornará a maior ameaça para Israel. Ele poderá transformar as vidas dos israelenses num pesadelo". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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