'Valls terá de mostrar que é um homem de esquerda', diz Bruno Caprès

Para analista, derrota socialista em municipais, a maior desde 1954, será um divisor de águas no governo de Hollande

Entrevista com

Andrei Netto, Correspondente/O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2014 | 02h07

PARIS - Após 22 meses de Palácio do Eliseu, François Hollande coleciona recordes de impopularidade, mas agora tem a possibilidade de recomeçar com a troca de primeiro-ministro. Para o cientista político Bruno Cautrès, pesquisador do Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, o novo escolhido, Manuel Valls, terá como primeira missão provar que é de esquerda.

O primeiro-ministro da França, Jean-Marc Ayrault, anunciou sua demissão e sua substituição por Manuel Valls, ministro do Interior. Qual foi o peso da eleição de domingo nessa decisão?

A eleição teve papel determinante. Todos sabiam que o PS sairia derrotado, mas muitos imaginavam que a sociologia das grandes cidades seria favorável à esquerda. Foi de fato o caso de Paris, de Lille e de outras. Mas o voto de sanção contra o governo de Hollande foi muito mais forte do que o esperado. Trata-se da mais importante derrota eleitoral local desde o início da V República, em 1954.

Quais as consequências diretas da derrota?

Uma é que a esquerda perderá a maioria nas metrópoles, como a Grande Paris, em Lille e Lion. Há símbolos da esquerda que foram preservados, mas outros foram conquistados pela direita. Os efeitos diretos sobre a gestão nacional serão grandes porque essa derrota se combina com a impopularidade de Hollande, com a curva do desemprego - que ele prometeu reverter e não conseguiu - e com as perspectivas do déficit piores do que tínhamos anunciado à União Europeia.

As eleições europeias de maio também se anunciam difíceis para o governo Hollande?

Sim, Hollande apostou muito na promessa de estímulos ao crescimento, em lugar de austeridade, na reforma da gestão da União Europeia e na mudanças de relações com a Alemanha de Angela Merkel. Nada disso aconteceu até aqui.

O escolhido para substituir Ayrault será Manuel Valls, visto como à direita do PS. O que ele representa?

Valls sempre representou a ala mais à direita do partido e há muito tempo era especializado em questões de segurança e polícia. Nicolas Sarkozy havia cogitado nomear Valls para o Ministério do Interior na abertura à esquerda do início de seu governo. Por ser visto como um homem de direita, Valls agora terá de mostrar que é um homem de esquerda, o que vai levá-lo a dar sinais às alas mais progressistas do PS, talvez por meio da política de impostos.

Qual sua análise do discurso de Hollande ao anunciar a mudança de governo?

Temos a confirmação de sua ênfase no Pacto de Responsabilidade, agora com uma nuance, que ele chamou de Pacto da Solidariedade, que deve se traduzir por uma baixa de impostos e das contribuições sociais. No restante, temos a sensação de uma linha geral mantida. Era hora de Hollande reagir e ele foi rápido, cortou os rumores sobre as mudanças de governo e deixou a impressão de que está fazendo o necessário para retomar o controle. Será necessário agora observar a reação da esquerda do PS, dos demais partidos de esquerda e dos ecologistas.

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