Valor e condições

A Espanha, quarta maior economia da Europa, vai formalizar nos próximos dias um dos maiores pedidos de resgate financeiro da história. Ao todo, € 100 bilhões em recursos da União Europeia e do Banco Central Europeu (BCE) devem ser colocados à disposição para recapitalizar o sistema bancário e evitar falências em cadeia.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h03

A informação confirma que a crise das dívidas, iniciada em dezembro de 2009, segue fazendo vítimas, com um diferencial: depois das economias periféricas da Grécia, Irlanda e Portugal, é um gigante da zona do euro que precisa ser socorrido às pressas.

A decisão de intervir na Espanha foi tomada após uma teleconferência do Eurogrupo, o fórum que reúne 17 ministros de Finanças do bloco. Depois de duas horas e meia, coube ao ministro da Economia da Espanha, Luis de Guindos, anunciar que Madri vai oficializar o pedido. "O governo espanhol informa sua intenção de pedir a capitalização europeia", disse Guindos.

Nos últimos 10 dias, o governo de Mariano Rajoy vinha sendo pressionado por Bruxelas e Berlim a aceitar um plano de resgate, que contava com o aval de outras duas importantes capitais da UE: Paris e Londres.

A surpresa foi o valor do pacote. Até a noite de sexta-feira, técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) que faziam auditorias no sistema financeiro espanhol indicavam que o valor chegaria a € 40 bilhões, abaixo da previsão de analistas. No mercado, os mais pessimistas falavam em € 60 bilhões. No início da noite de sábado, porém, o número - ainda não definitivo - foi muito superior: até € 100 bilhões.

Até antes da reunião, o montante ainda vinha sendo debatido. À imprensa de seu país, o primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeld, havia citado um valor acima de € 80 bilhões. "Vai se tratar de um dos maiores planos de socorro financeiro da história recente", antecipou.

O valor supera os pacotes de resgate da Irlanda, de 85 bilhões, e de Portugal, de 78 bilhões. Mas é inferior aos 130 bilhões emprestados à Grécia.

De acordo com o comunicado do Eurogrupo, o montante à disposição da Espanha é preventivo e dá ao país margem para definir o valor final. "A quantia de € 100 bilhões é a máxima e inclui uma margem de segurança muito importante", explicou Guindos. Nos próximos 15 dias, auditores das consultorias Roland Berger e Oliver Wyman, que trabalham no caso ao lado do FMI, definirão o montante a ser tomado emprestado por Madri e, a seguir, repassado aos bancos.

Também caberá ao Fundo e aos auditores, com aval do Banco Central da Espanha, definir que instituições serão resgatadas. Segundo Guindos, "70% delas é muito solvente". Até aqui, Bankia, Banco de Valencia, Novacaixagalicia e Canalunyacaixa foram nacionalizados ou recapitalizados pelo Fundo de Reestruturação Bancária (Frob).

Embora as modalidades da "ajuda financeira" não tenham sido definidas, os recursos devem vir do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES), que entra em atividade em 1o de julho, com € 700 bilhões em aportes do BCE e dos países-membros.

Sem FMI. Ao contrário do ocorrido nos quatro planos de socorro a Grécia, Irlanda e Portugal, o FMI não participará da injeção de capital. Isso porque Rajoy se recusava a receber a intervenção dos técnicos do Fundo, temendo perda de soberania. Por ora, também não está prevista a adoção de nenhum plano suplementar de austeridade, como vem sendo exigido de Atenas, Dublin e Lisboa nos últimos dois anos. Guindos informou que o FMI realizará assessoria e apoio do programa. A diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, não havia se manifestado até ontem.

Nas duas últimas semanas, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, insistia para que a Espanha formalizasse o pedido de socorro. De outro lado, Rajoy agregara o apoio dos líderes de outras duas potências, François Hollande, presidente da França, e David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, para tentar evitar a participação do FMI.

Madri não conseguiu, porém, impedir que o dinheiro do plano passe pelo Tesouro antes de chegar aos bancos - o que faz do pacote um resgate à Espanha, e não só aos bancos. Caso uma das instituições beneficiadas não reembolse o empréstimo, o ônus vai recair sobre os espanhóis.

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