Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Pressionado sobre embaixada em Jerusalém, Bolsonaro cogita abrir escritório de negócios

Possível transferência de sede diplomática descontenta países árabes que negociam com o Brasil; decisão sobre mudança não deve ocorrer durante viagem do presidente ao país

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2019 | 13h06

BRASÍLIA - Às vésperas de sua primeira viagem oficial a Israel, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou nesta quinta-feira, 28, que não deve anunciar a transferência da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém durante os três dias que ficará no país, considerado um aliado-chave de seu governo. A solução encontrada deve ser a instalação de um escritório de negócios em Jerusalém. 

O presidente afirmou também que a decisão sobre a mudança de embaixada em Israel não deve acontecer durante a sua viagem ao país, no próximo final de semana. "O (presidente dos EUA, Donald) Trump levou nove meses para decidir, para dar a palavra final para que a embaixada (americana) fosse transferida", justificou Bolsonaro.

Bolsonaro disse que o Brasil "já começou a votar de acordo com a verdade" na ONU. Segundo ele,  o País tem apoiado Israel. "Nós já começamos a votar de acordo com a verdade na ONU, Israel, EUA, Brasil e mais alguns países que têm se manifestado diferentemente da forma tradicional, que era o lado da Palestina, por exemplo", disse. Ainda de acordo com Bolsonaro, o Brasil "voltou a uma realidade" e quer "direitos humanos de verdade" na região.

 A mudança de embaixada foi uma das promessas de campanha de Bolsonaro e também é uma cobrança da bancada evangélica.  Logo após o anúncio, países árabes que mantêm boas relações comerciais com o Brasil - principalmente na compra de carne bovina -  manifestaram insatisfação com a intenção de Bolsonaro. O governo do Egito chegou a adiar uma viagem oficial ao país no fim do ano pasado. 

Na semana passada, em votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, o Brasil apoiou Israel em questões relativas às Colinas do Golan, que, na segunda-feira, foram reconhecidas pelos Estados Unidos como território israelense, apesar de pertencerem à Síria

“Nós talvez abramos agora um escritório de negócios em Jerusalém”, disse nesta quinta-feira, 28, o presidente ao ser questionado sobre a eventual mudança da embaixada. O gesto poderia servir como parte do processo de reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, mas sem comprometer a relação do Brasil com os países árabes, fortes parceiros comerciais do País. 

Decisão semelhante foi tomada pela Austrália, no final do ano passado, que anunciou a instalação de um escritório comercial em Jerusalém, mas ponderou que a transferência da embaixada só vai acontecer quando o status da cidade for determinado por um acordo de paz.

A mudança da embaixada para Jerusalém é uma promessa de campanha de Bolsonaro e uma cobrança da comunidade evangélica. Ele cita Donald Trump para justificar que a promessa, na prática, ainda deve demorar. “Trump levou nove meses para decidir, para dar a palavra final para que a embaixada (americana) fosse transferida”, disse o presidente.

A possibilidade de instalação de um escritório, em vez da mudança da embaixada, agrada a bancada evangélica num primeiro momento, mas não deve cessar as cobranças pela mudança efetiva. O deputado Marco Feliciano afirmou que optar por um escritório de negócios poderia ser uma “boa solução a princípio”. Para ele, seria uma solução provisória, até o Brasil “conseguir um maior apoio da comunidade árabe”. 

Já o deputado Sóstenes Cavalcante deixou claro que escritório avançado não é transferência de embaixada. “Estou ansioso para ver o cumprimento do compromisso com os evangélicos e com os judeus da transferência da embaixada do Brasil para Jerusalém. Eu tenho convicção que o presidente Jair Bolsonaro é um homem de palavra”, escreveu no Twitter.

O Brasil possui atualmente três escritórios no exterior: em Ramallah, na Cisjordânia; em Taiwan e em Nova York, nos EUA. Os dois primeiros possuem características semelhantes ao que seria instalado em Jerusalém. Já o de Nova York é mais limitado por ser apenas um escritório de finanças.

Entre a comunidade árabe, o clima é de cautela para aguardar o que Bolsonaro vai fazer. Eles trabalham com todos os cenários, considerando a transferência, a não transferência e a criação do escritório. Por isso, evitam se manifestar antes da viagem. A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira foi contactada, mas não deu declarações. 

Já a Confederação Israelita do Brasil vê “com bons olhos” a instalação do escritório. “Uma visão mais equilibrada dos conflitos na região contribuirá para se chegar a soluções justas. A capital de Israel fica em Jerusalém, e um movimento do Brasil no reconhecimento desse fato é positivo”, disse o presidente da entidade, Fernando Lottenberg.

O presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, Jayme Blay, disse que a abertura do escritório traz “esperança de novos negócios. A Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria vai levar 40 empresários para Israel no mesmo período em que Bolsonaro estiver no país, entre domingo e quinta-feira. Eles devem se reunir na terça-feira. Segundo a assessoria de imprensa, a viagem não tem ligação direta com a de Bolsonaro, mas acontecerá “paralelamente”. 

Contrariando a posição dos últimos anos, o Brasil tem se posicionado a favor de Israel em fóruns internacionais. Nesta quinta-feira, 28, Bolsonaro reforçou a nova orientação. “Nós já começamos a votar de acordo com a verdade na ONU. Israel, EUA, Brasil e mais alguns outros países já começaram a votar diferentemente da forma tradicional, que era o lado da Palestina, por exemplo, e defendendo coisas voltadas a Cuba. Nós voltamos a uma realidade. Nós temos direitos humanos de verdade”, afirmou.

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