Vamos, Índia! Mostre que a liberdade pode vencer a tirania

Mesmo não tendo o sucesso da China, o país tem algo a mais

Timothy Garton Ash,

03 de fevereiro de 2013 | 02h07

Por que, aparentemente, a maior democracia do mundo está pior do que a maior ditadura do planeta? Vamos nos ater a esta palavra, "aparentemente", já que existem pouquíssimos indicadores sobre o desempenho de Índia e China. Contudo, qualquer pessoa para quem a liberdade é importante gostaria que esse país livre tenha um desempenho melhor.

Em termos de crescimento, inflação, renda per capita, desemprego, déficit orçamentário, corrupção - praticamente todos os indicadores nos quais a elite reunida em Davos acredita - a Índia mostra um desempenho pior que o da China. A grande recuperação prevista há cinco anos não ocorreu.

No caso do PIB per capita, por exemplo, a Índia coxeia com US$ 3.851 em comparação com os US$ 9.146 registrados pela China. Segundo dados oficiais de 2011, o desemprego na Índia era mais do que o do dobro na China. O índice da Transparência Internacional que mede a percepção da corrupção coloca a China no 80.º lugar, mas a Índia está no 94.º. E assim por diante.

Sim, a China provavelmente manipula suas contas mais do que a Índia, de modo que devemos dar um desconto pelas "mentiras, malditas mentiras, e estatísticas". Mas quase todas as pessoas com quem conversei em mais de duas semanas de viagem pela Índia, fosse um jornalista, uma empresária, um estudioso e um observador estrangeiro, basicamente aceitaram esse veredicto. Na verdade, acrescentaram outros dados. A vida dos pobres da zona rural dificilmente melhorou em comparação com duas ou três décadas atrás. Um ex-juiz da Suprema Corte, um sobrevivente da antiga e progressista Índia de Nehru, disse-me com uma profunda indignação que mais de 40% das crianças indianas estão desnutridas. "Pior do que na África", ele exclamou. Agricultores indianos cometeram suicídio em 2010 quando perderam suas colheitas.

Mesmo o viajante mais superficial não deixa de observar a chocante proximidade da riqueza e da miséria, seja nas favelas repletas de lixo em Mumbai ou nas chácaras de aspecto medieval visíveis da recém-inaugurada rodovia.

Por que? Sugerimos algumas explicações. Ao contrário da China, mas como a Europa, a Índia despende uma enorme energia simplesmente administrando sua incrível diversidade. O presidente francês Charles De Gaulle certa vez questionou: "Como você pode governar um país que tem 246 variedades de queijo?". Bem, e o que dizer de um país que possui 330 milhões de divindades? A Índia é um continente, uma Commonwealth, um império em si mesmo. E como a Europa, vem tentando gerir essa diversidade com liberdade. A China também tem uma diversidade demográfica em vastas áreas com população escassa, formada principalmente por muçulmanos ou tibetanos, mas administra a situação usando a repressão.

Para fazer com que a liberdade na diversidade funcione, você necessita ter um discurso de união poderoso. A Europa adotou este tipo de discurso após 1945, mas ele foi perdido. E a India também, nas primeiras décadas após a independência. Mas, como a Europa, ela perdeu o foco nele. Pelo contrário, existem múltiplas versões concorrentes num ambiente político e numa imprensa aberta para todos. Infelizmente, muitos destes discursos são sectários, regionalistas, chauvinistas, que mais dividem do que unem.

E há também a chamada "License Raj", conjunto de regras para o setor privado que prevaleceu entre 1947 e os anos 90. Uma estrutura administrativa herdada do império britânico que não mudou sob muitos aspectos e inchou, transformando-se numa burocracia horripilante.

Capitães de indústria indianos, como Lakshmi Mittal e Ratan Tata, que se aposentou recentemente, preferem investir em outros lugares, pois são necessários sete ou oito anos para conseguir todas as licenças necessárias no país.

Se o problema de um Estado pós-colonial é a burocracia, então uma maior desregulamentação e liberalização econômica deveriam ser a resposta. Sob alguns aspectos sim. Seria, por exemplo, a única maneira de alcançarmos um acordo de livre comércio entre Índia e União Europeia que beneficiaria muito ambos os lados. Mas a liberalização desenfreada do mercado nos anos 90 também é parte do problema. É o caso da mídia por exemplo. A mídia indiana, com algumas exceções, baixou tanto o seu nível, é tão sensacionalista, que faz que a Fox News pareça um canal de TV "justo e equilibrado.

E depois temos a questão política. Todos me disseram que negócios e política em Nova Délhi estão tão entrelaçados como deuses e deusas tântricos. Existe também o monstruoso desdém para com os dois a cada três indianos que continuam na extrema pobreza. Enquanto algumas iniciativas filantrópicas e de empresas propiciam uma ajuda essencial para essas pessoas, os políticos apenas oferecem subsídios para a compra de gêneros alimentícios e depois compram seus votos a cada eleição.

Então a China está destinada a vencer? Não. Porque, embora o sistema indiano seja uma novela diária de pequenas crises, a grande crise do contraditório sistema da China de capitalismo leninista ainda vai ocorrer. E também porque a Índia é um país livre, com a mais impressionante diversidade em termos de talento humano, originalidade, personalidade e espiritualidade. Certamente, essa expressão livre de individualidade humana tem de se revelar no final.

Então eu digo: Vamos Índia! Na minha opinião vocês conseguirão derrotar a Inglaterra no críquete em qualquer jogo nos próximos dez anos, mas com uma condição: desde que Índia comece a vencer a China no campo da política. E quando digo política me refiro a realizar o pleno potencial dos seus cidadãos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É ESCRITOR

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