Vamos todos sentir saudade de Bush

Admitam, vamos sentir falta dele. Ninguém gosta exatamente de George W. Bush. Ninguém pede uma emenda constitucional para que ele fique na presidência por mais um mandato. Mas não é difícil imaginar a vida sem ele?Sentiremos saudades do presidente que declarou: "Nossos inimigos são inovadores, e têm inúmeros recursos; nós também. Eles não se cansam de imaginar novas maneiras de prejudicar nosso país e nosso povo; nós também." Sentiremos saudade do homem que mostrou sua empatia observando: "Vocês dão duro para pôr comida na sua família."Depois que Bush se for, de quem vamos rir? Não olhem para Barack Obama em busca de salvação. Ele já provocou um verdadeiro desespero entre os comediantes. Ele não é engraçado: fala sentenças completas, coerentes. Basicamente, acaba com a alegria da gente. Principalmente, com a saída de Bush, quem é que nós vamos odiar? Bush nos proporcionava amplos motivos para que não gostássemos dele. Sua sintaxe massacrada, suas caretas agoniadas provocavam risadas, mas também raiva e desprezo. Sua incompetência enlouquecia e frequentemente nos arrasava. A economia? Nem pensem em enveredar no tema. Depois, há outros crimes (isso mesmo, crimes) deste governo. As práticas de interrogatório autorizadas por Bush infringiram toda interpretação correta das leis federais que proíbem a tortura e os crimes de guerra.Tudo isso - e muito mais - tornou Bush um alvo fácil de uma aversão generalizada. No final de dezembro, as pesquisas mostraram que mais de dois terços dos americanos achavam que Bush entraria na história como um presidente "fraco" ou um presidente "muito fraco"; e 28% assinalaram "o pior presidente que os EUA já tiveram".Durante anos, Bush facilitou - às vezes até demais - a tarefa de um comentarista liberal. Bastava abrir o jornal ou ligar a TV e, Bingo!, mais uma barbaridade de Bush. Com a ampla maioria do país absolutamente nauseada com suas ações, qualquer crítica feita a esmo contra Bush acertava em cheio, agradando às multidões.Mas também devemos muito a Bush. Afinal, foi ele que nos trouxe Obama (cujos índices de aprovação passam de 80%). Obama conquistou seu direito de ser o candidato da "mudança" pois era, para a maioria dos eleitores, de todos os candidatos, o mais diferente de Bush.Não quero com isso diminuir o impulso positivo da mensagem e das medidas de Obama. Ele realizou uma campanha positiva, enfatizando a esperança, a justiça e a visão de um futuro mais harmonioso, mais propício e menos assustador. Mas me pergunto se esta visão positiva teria tido a ressonância que teve se os americanos já não estivessem furiosos com Bush e com o caos que ele criou.A pesquisa dos aspectos psicológicos sugere de maneira consistente (embora deprimente) que é muito mais fácil criar uma solidariedade política e social a partir de emoções negativas (medo, raiva) do que a partir de emoções positivas (esperança, generosidade, amor). O que mantém os grupos unidos, em geral, é uma sensação coletiva de oposição a alguma força percebida como algo ameaçador, interna ou externamente. É mais fácil ser contra algo que a favor, espalhar o veneno anticomunistas do que a paixão pró-capitalista, incitar ao antissemitismo ou ao antiislamismo do que a um orgulho coletivo pela tolerância religiosa.Não que eu esteja afirmando que os seres humanos nunca são motivados por emoções positivas ou que não possam abrigar, simultaneamente, emoções negativas e positivas. Podemos sentir um prazer e uma esperança genuínos diante da perspectiva de uma nação mais generosa, corajosa e pluralista, ao mesmo tempo que sentimos raiva por Bush. Mas, muitas vezes, as emoções positivas parecem menos capazes de suscitar um comportamento político.Então, o que faremos em um mundo pós-Bush? A visão otimista de Obama será suficiente para nos manter unidos, quando Bush, nosso conveniente bode expiatório (embora merecidamente) se for? Ou ficaremos procurando uma nova ameaça contra a qual nos unirmos? (A crise econômica talvez seja o instrumento mais útil para Obama, neste sentido).Bush não manteve muitas das promessas iniciais de sua campanha, mas acabou mantendo sua promessa de que seria "um aglutinador, não um divisor", embora não com o significado que pretendia: ele deixa atrás de si uma nação unida, finalmente aglutinada por um caloroso desejo de vê-lo pelas costas. Sentiremos saudade dele.*Rosa Brooks é colunista

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.