EFE/Martín Alipaz
EFE/Martín Alipaz

Vantagem de Kuczynski sobre Keiko é irreversível, diz instituto de pesquisas

Com 97,7% das urnas do 2º turno contabilizadas no Peru, tendência de vitória do candidato sobre Keiko Fujimori deve ser mantida até o final da apuração; indulto a ex-presidente poderia ser uma das fórmulas para seduzir bancada majoritária no Congresso

Luiz Raatz, enviado especial / Lima, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2016 | 11h13

LIMA - Com 97,7% das urnas apuradas, Pedro Pablo Kuczynski liderava na terça-feira a apuração dos segundo turno da eleição peruana com 56.392 votos de vantagem sobre a conservadora Keiko Fujimori (50,16% a 49,83%). Segundo o Instituto Ipsos, um dos mais respeitados do país, a vantagem é irreversível, mas nenhum dos candidatos até a noite de ontem declarou vitória.

O presidente do Ipsos, Alfredo Torres, disse na noite de terça-feira que a vantagem de 0,3 ponto porcentual de Kuczynski sobre Keiko, restando pouco mais de 2,4% dos votos para serem contados, não deve ser alterada. Segundo o estatístico, nas urnas que faltam, a filha de Alberto Fujimori teria de ter uma vantagem superior a 70% dos votos sobre PPK para virar o jogo – algo que não vem acontecendo. “Ela teria de ter mais de sete de cada dez votos, o que é estatisticamente improvável”, disse ele ao diário El Comércio.

Analistas alertam para a necessidade de PPK negociar com o fujimorismo. “Quem quer que chegue ao governo terá de fazer concessões”, disse ao Estado a cientista política Paula Muñoz, do Centro de Pesquisa da Universidade do Pacífico. E este pode ser um dado positivo para Kuczynski. “O grupo de Keiko terá de mostrar que se renovou, que tem compromisso real com a democracia e, para manter-se como opção futura, não poderá abusar de sua maioria (no Legislativo).”

Caso confirme a vitória, ele terá de governar com um Congresso dominado por opositores, uma vez que seu partido elegeu apenas 18 dos 130 deputados do Congresso unicameral. Os fujimoristas, por seu lado, terão 73 deputados.

Ninguém do lado de PPK, como o candidato é conhecido, admite abertamente, mas a libertação de Alberto Fujimori, preso desde 2005 por acusações de violar direitos humanos e ter cometido outros abusos, não é uma possibilidade descartada como contrapartida. 

Ainda ontem, o candidato a vice-presidente de PPK, Martín Vizcarra, disse que, apesar da cautela, o começo da montagem da equipe de transição já começou. 

O analista Eduardo Dargent concorda com a necessidade de moderação do partido Fuerza Popular, criado por Keiko, nos próximos cinco anos. “Não creio que o fujimorismo aposte na estratégia de ataques ao Executivo. Isso demonstraria falta de maturidade política”, afirmou. “Eles não apostarão no obstrucionismo se quiserem um dia ganhar a presidência.”

Credibilidade. Em relação à apuração, os analistas acreditam ser improvável que o lado perdedor tente apelar para manobras que adiem ainda mais o resultado da disputa, como recontagens e impugnações. 

“As declarações cautelosas dos dois partidos mostram que eles respeitarão os resultados, em um ato de responsabilidade democrática”, ponderou Paula. “Seria perigoso num contexto como esse tentar virar a mesa e falar de fraude. Tiraria credibilidade do processo e pressionaria o novo governo.”

Nas ruas de Lima, no entanto, boatos, incerteza e desconfiança dão o tom das conversas. Na Praça San Martín, no centro da cidade, eleitores de Keiko e PPK reclamavam da demora na divulgação do resultado e dão vazão a teorias da conspiração. 

“Eu não gosto dessa demora. Votei em PPK e gostaria que o resultado já tivesse sido anunciado”, disse o funcionário público Eduardo Vilches. “Não entendo a razão disso.”

De acordo com dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), faltam os votos do exterior e de algumas províncias isoladas do interior do Peru, para terminar a apuração. Cerca de 1,5% das urnas podem ser descartadas por irregularidades pela Justiça eleitoral, mas esses votos não devem afetar o resultado. 

Os colégios eleitorais com apuração mais atrasada se dividem entre zonas de forte respaldo fujimorista, como Callao e Junín, e de votos pró-Kuczynski, como Loreto e Cuzco. Nas duas primeiras, Keiko lidera com vantagens de até 2,1 pontos porcentuais. Kuczynski, por sua vez, tem margens entre 11 e 31 pontos.

Veja abaixo: Mulheres protestam contra Keiko Fujimori no Peru

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.