Vantagens óbvias de uma guerra liberal

Os EUA partilharão o fardo da missão e encorajarão potências europeias a sustentar sua [br]parcela de responsabilidade pela manutenção da ordem mundial

Ross Douthat, International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

No demorado e indireto avanço rumo a um conflito militar com o líder líbio, Muamar Kadafi, o governo Barack Obama apresentou um verdadeiro seminário sobre o modelo liberal de guerra.

Há apenas uma semana, enquanto a situação começava a se voltar contra a rebelião que busca depor Kadafi, Obama parecia determinado a manter os EUA longe do conflito civil da Líbia. Mas parece que o presidente estava disposto a envolver os EUA desde o início. Ele queria apenas garantir que isso fosse feito da maneira mais multilateral possível, afastando-se do estilo caubói.

E, de fato, isso o governo conseguiu fazer. Ao menos no seu estágio inicial, a guerra na Líbia assemelha-se ao ideal perfeito de uma intervenção liberal internacionalista. Ela foi abençoada pelo Conselho de Segurança da ONU e foi apoiada pela Liga Árabe. Foi proposta por diplomatas do Departamento de Estado de Hillary Clinton, e não pelos militares do Pentágono de Robert Gates. Seu objetivo humanitário é muito mais claro do que sua conexão com a segurança nacional americana. E ela não foi iniciada pelos fuzileiros navais dos EUA, mas pelos caças da França.

Em outras palavras, trata-se de uma intervenção saída diretamente do manual de Bill Clinton da década de 90 - uma abordagem muito diferente dos métodos mais unilaterais do governo George W. Bush. Não se fala em "coalizão dos dispostos", não há referências desdenhosas à "velha Europa" e nada de "ou estão do nosso lado ou estão com os terroristas". Em vez disso, a Casa Branca demonstrou notável deferência às mesmas instituições internacionais e governos estrangeiros que o governo Bush preferiu atropelar ou ignorar.

Este modo de conduzir a guerra traz vantagens óbvias. O fardo da ação militar é partilhado, fortalecendo nossas alianças e amenizando os excessos do antiamericanismo instintivo do restante do mundo. O melhor: isso encoraja as potências europeias a sustentar sua parcela de responsabilidade pela manutenção da ordem mundial, impedindo que elas simplesmente critiquem os EUA sem se envolver.

Mas esta abordagem para a guerra traz também grandes problemas. Por dependerem do constante estabelecimento de consensos na chamada comunidade internacional, as guerras liberais costumam ser travadas por comitês, a um ritmo glacial, e com uma cautela que logo se transforma em incompetência tática. E como sua relação com um interesse nacional costuma ser tangencial (na melhor das hipóteses), elas costumam ser travadas com uma mão atrás das costas e um olho nas rotas de fuga e não com o compromisso total necessário para a vitória.

Estes problemas foram um obstáculo para a política externa americana durante a década de 90, a última maré alta de intervencionismo liberal. Na Somália, a opinião pública sobre nossa missão humanitária azedou assim que se tornou claro que as forças americanas sofreriam baixas enquanto distribuíam suprimentos de emergência. Na ex-Iugoslávia, a Otan impôs uma zona de exclusão aérea em 1993, mas foram necessários dois anos de negociação diplomática para definir como seria a atuação das forças de paz, durante os quais a guerra seguiu com força total, antes de os ataques aéreos americanos abrirem caminho para a negociação de uma paz.

Nossa intervenção em Kosovo em 1999 proporciona uma lição cautelar ainda mais notável. A campanha de bombardeios da Otan ajudou a derrubar Slobodan Milosevic e viabilizou a independência de Kosovo. Mas, ao aumentar as apostas tanto para Milosevic quanto para seus adversários do Exército de Libertação de Kosovo, a intervenção do Ocidente provavelmente inspirou mais derramamento de sangue e episódios de limpeza étnica no curto prazo, exacerbando a crise humana que deveria ter sido remediada por ela.

Dificuldades do mesmo tipo já estão surgindo na Líbia. Os objetivos de nossa coalizão não são claros: o presidente Obama mostra em sua retórica um compromisso com a queda de Kadafi, mas o almirante Mike Mullen, presidente do Estado-maior Conjunto, disse no domingo que o ditador pode permanecer no poder. Nossos meios são limitados: a resolução da ONU que estamos apoiando exclui explicitamente o uso de tropas em solo líbio, determinação reforçada por Obama. E alguns de nossos supostos parceiros não têm estômago suficiente para uma briga: foram necessárias cerca de 24 horas para que Amr Moussa, líder da Liga Árabe, sugerisse que o apoio da organização à criação de uma zona de exclusão aérea não se estendia a missões de bombardeio.

E o tempo que foi necessário para a construção de uma coalizão multilateral permitiu que Kadafi consolidasse sua posição, a tal ponto que um cessar-fogo o deixaria agora no controle do país. Foi por isso que o almirante Mike Mullen admitiu que nossos esforços podem acabar num impasse, com o ditador líbio entrincheirado na capital.

A última esperança da abordagem liberal para a condução da guerra é lutar tão virtuosamente quanto o possível, e correndo um mínimo de riscos. Mas guerra e moralismo são parceiros difíceis, e conflitos de "risco mínimo" muitas vezes se mostram os mais arriscados. Ao declarar o compromisso dos EUA com os perigos de mais uma intervenção militar, Obama apostou muito na esperança de que nossa aventura na Líbia se mostrará uma exceção a esta regra. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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