Chester Higgins, Jr./The New York Times
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Vargas Llosa: Robert Mugabe, o déspota do Zimbábue

A coisa mais absurda é Mugabe ter sido nomeado ‘herói nacional’ depois de morto

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 07h00

Você sabe por que milhões de africanos querem entrar na Europa, arriscando-se a morrer afogados no Mediterrâneo? Porque, infelizmente para eles, ainda há um bom número de tiranos na África, como Robert Mugabe, o sátrapa que durante 37 anos foi mestre e senhor do Zimbábue e acabou de morrer no Hospital Gleneagles, em Cingapura.

Ele tinha 95 anos, gostava muito de críquete, lagostas e champanhe francês, costumava gastar cerca de US$ 250 mil em cada uma de suas festas de aniversário e estima-se que tenha deixado para sua viúva Grace – apelidada Gucci por seu amor às roupas e bolsas da marca e várias décadas mais jovem que seu marido – uma herança de nada menos que US$ 1 bilhão.

Sua façanha mais extraordinária não foram seus roubos, nem as dezenas de milhares de zimbabuanos que ele torturou, aprisionou e matou. Também não foi a uma hiperinflação de 79,6 milhões por cento ao ano – chegaram a ser impressas notas de cem bilhões – que acabou fazendo desaparecer a moeda nacional. Mas, talvez, tenha sido a façanha de destruir a agricultura de um país que, nos dias do colonialismo britânico, se dizia o celeiro da África. 

Hoje, essa nação, a mais próspera do continente há meio século, morre de fome. Um terço de sua população foi forçada a fugir para o exterior em razão das perseguições e dos massacres de Mugabe. Agora, são a miséria e a falta de trabalho que levam a fugir para o exterior em busca da sobrevivência, os milhões de infelizes zimbabuanos.

A África foi o berço do que talvez seja o melhor estadista conhecido pela humanidade no século passado – quero dizer o sul-africano Nelson Mandela, graças ao qual seu país é um dos que escapam da crise que assola tantos outros. Mas, depois do desaparecimento do sistema colonial, como a América Latina, em vez de estabelecer a democracia e desenvolver seus abundantes recursos, esse continente estava repleto de tiranos gananciosos e venais, além de assassinos – as exceções cabiam em uma única mão.

Esses tiranos continuavam empobrecendo seus países ao extremo, causando um êxodo gigantesco que hoje é um problema para o mundo inteiro. A tragédia que o Zimbábue viveu com o jugo de ferro de Mugabe é um bom exemplo do que aconteceu com muitos países africanos que, depois de se libertarem de um sistema colonial racista e saqueador, despencaram nas ditaduras de ladrões sanguinários.

Como outros sátrapas da história, Mugabe, filho de um carpinteiro e de uma catequista cristã, recebeu uma boa educação. Forçado ao exílio por sua militância anticolonial, ele estudou primeiro em universidades da África do Sul e depois em Gana, onde também foi professor. Ele, então, se declarou um discípulo do africanista Kwame Nkrumah, mas, durante os anos de ação anticolonialista contra o regime racista de Ian Smith (o Zimbábue era então chamado de Rodésia), ele liderou um movimento maoista. 

Passou cerca de dez anos na prisão e saiu de lá convertido em um político inescrupuloso, intrigante e astuto que foi marginalizando (e, às vezes, liquidando) seus ex-companheiros na luta anticolonial, como Joshua Nkomo, que acabou se levantando contra ele. A repressão de Mugabe foi terrível. Além dos que se rebelavam, estendia-se às comunidades de shonas e ndebeles, que ele praticamente exterminou. Entre 20 mil e 30 mil membros dessas comunidades pereceram naqueles terríveis massacres.

Segundo os acordos da Casa de Lancaster, que deram independência ao Zimbábue, o governo de Mugabe se comprometeu em respeitar as terras de cerca de 5 mil agricultores brancos do Zimbábue que, apesar de serem produto de rapinas coloniais, eram tecnicamente exemplares e garantiam trabalho e grandes recursos para o país. Mas esses produtores foram desapropriados durante a pitoresca “reforma agrária” que Mugabe empreendeu em 2000 e consistiu em distribuir essas empresas prósperas entre seus companheiros e protegidos.

Foi o começo do colapso da agricultura nacional que, depois de alguns anos, tornaria um dos países mais ricos da África uma sociedade pobre e deprimida. O autocrata, apesar disso, não cessava seus enlouquecidos desatinos, nem os dissimulava. Ele contratou uma empresa chinesa para construir no centro de sua propriedade de 22 hectares, em Harare, um palacete no estilo de Versalhes de 25 quartos que decorou com todo o luxo. Em um de seus discursos mais difundidos, ele reconheceu que admirava Hitler e não se importava em ser comparado a ele. 

Mugabe acreditava contar com a certeza da cumplicidade de seu partido, deixando seus líderes roubarem, mas até mesmo isso tinha um limite. Seus problemas com membros do próprio partido começaram quando ele insistiu que sua jovem mulher, Grace, o substituísse no governo. Isso o levou a um confronto com o braço direito e o homem de todos os serviços, Emmerson Mnangagwa, atual presidente, que conspirou com os militares que forçaram Mugabe a renunciar – embora sem acusação e deixando sua fortuna intacta. 

Há, portanto, pouca esperança de que, com a morte do autocrata, as coisas mudem nessa infeliz nação. Seus cúmplices, que têm as mãos tão manchadas de sangue quanto ele e, ao mesmo tempo em que enriqueciam e arruinaram o Zimbábue, permanecem no poder, de modo que o empobrecimento do país continuará contribuindo para a migração de milhões de africanos que buscam na Europa o que sua terra natal é incapaz de dar.

Talvez a coisa mais absurda sobre essa morte tenha sido que quem o tirou do poder pela força, não menos que o próprio Mnangagwa, anunciou sua morte “com a maior tristeza”. “Era um ícone da libertação”, proclamou, “um pan-africanista que dedicou sua vida à emancipação e capacitação de seu povo”. “Sua contribuição para a história de nossa nação e do continente nunca será esquecida.” E, logo depois, ele anunciou que seu governo decidiu nomear Mugabe “herói nacional”.

A história da África é tão triste quanto tem sido a da América Latina. Nunca aprendemos que a democracia não é apenas a independência dos poderes e a diversidade política, mas também o fato de ter políticos honrados, que respeitam as leis e não se aproveitam do poder para enriquecer e liquidar o adversário. 

Os Mandelas que chegamos a ter – havia vários, embora nenhum tivesse o impacto global do sul-africano – eram aves de passagem e não criaram uma escola. O pior não é que exista um lixo humano como Mugabe, mas que existam pessoas que votem neles, os escolhem e os reelegem. E, como Mnangagwa fez com ele, os tornam “heróis nacionais”. Com poucas exceções, aparentemente nem os africanos nem os latino-americanos têm remédio. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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