Mandel Ngan/AFP
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Variante brasileira de coronavírus preocupa EUA e restrição de viagens não cai tão cedo, diz Fauci

Administração Biden se preocupa com a possível redução de eficácia da imunização da população diante das novas cepas de coronavírus

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 19h16

WASHINGTON - A variante de coronavírus identificada inicialmente no Brasil preocupa o governo dos Estados Unidos, que não planeja derrubar a restrição de entrada de passageiros brasileiros tão cedo. A informação é do diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas e um dos principais nomes do governo Biden na estratégia de combate à pandemia, Anthony Fauci.

"O Brasil tem uma mutação que é uma preocupação para nós. É uma mutação que é muito similar à variante da África do Sul, que tem escapado da proteção de muitos anticorpos monoclonais e que diminui a eficácia de anticorpos induzidos por duas vacinas que estão disponíveis", disse Fauci, ao ser questionado pelo Estadão durante coletiva de imprensa com correspondentes estrangeiros nesta sexta-feira, organizada pelo Centro de Imprensa Estrangeira dos EUA. 

O governo Biden promete aplicar ao menos 100 milhões de doses das vacinas da Pfizer e da Moderna até o fim de abril, nos 100 primeiros dias de gestão do novo presidente americano. Mas o governo se preocupa com a possível redução de eficácia da imunização da população diante das novas cepas de coronavírus.

Nesta semana, pesquisa publicada na revista Nature Medicine mostrou que a vacina da Pfizer é capaz de neutralizar variantes do coronavírus que apareceram no Reino Unido e na África do Sul. Pesquisa com a vacina da Moderna também indica que o imunizante é eficaz diante de variantes. Há no governo americano, no entanto, cautela com relação às novas cepas no momento de esforço para reduzir o número de casos e mortos por covid-19 no país. Por isso, o fluxo de viagens entre Brasil e EUA não deve voltar ao normal tão cedo.

"Então há uma preocupação com relação às viagens. Não acredito que haverá nenhuma mudança no futuro imediato das restrições de viagem impostas ao Brasil", afirmou Fauci.

Desde maio de 2020, o governo americano proíbe a entrada de passageiros que estiveram no Brasil nos 14 dias que antecedem a chegada aos EUA. A restrição foi estabelecida por Donald Trump, diante do aumento no número de casos de covid-19 no País. Antes, Trump já havia estabelecido restrições semelhantes a passageiros oriundos da China, Irã, Reino Unido, Irlanda e 26 países europeus que compõem a zona Schengen.

Dois dias antes do término de seu mandato, Trump derrubou a proibição para passageiros do Brasil, Reino Unido, Irlanda e países europeus. Ao assumir a Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reverteu a medida do antecessor e recolocou as restrições. Além disso, Biden adicionou a África do Sul à lista, em razão da variante identificada no país.

No mesmo dia em que Biden restabeleceu as restrições, o Departamento de Saúde do Estado americano de Minnesota confirmou a identificação de um caso da mutação brasileira de coronavírus. A variante inicialmente vista em Manaus, portanto, já está em circulação nos EUA.

Há uma possibilidade, segundo Fauci, de atualizar parte do protocolo de restrição de entrada atualmente em vigor. Pela ordem executiva assinada por Biden -- com termos praticamente iguais aos da medida imposta por Trump -- um passageiro não pode ter estado no Brasil, Europa, Reino Unido, Irlanda ou na África do Sul nos 14 dias antecedentes à chegada aos EUA. 

O prazo de 14 dias foi estabelecido quando o Centro de Controle de Doenças americano (CDC) recomendava quarentena por igual período para os que tiveram exposição ao coronavírus. Com isso, muitos brasileiros ou europeus que precisam entrar nos EUA passam 14 dias em um terceiro país, como o México, para então viajar aos Estados Unidos.

Nas últimas semanas, no entanto, o CDC atualizou o período de recomendação de quarentena para quem se expôs ao vírus dentro dos Estados Unidos. Agora, o período de isolamento recomendado é de dez dias -- ou sete dias de isolamento após teste negativo de covid-19.

Por ora, as restrições de viagem continuam a exigir que o passageiro não tenha estado nos países banidos nos 14 dias que antecedem a chegada aos EUA. Segundo Fauci, no entanto, essa política pode ser atualizada pelo CDC em breve, para reduzir o tempo que um passageiro do Brasil ou da Europa, por exemplo, precisa ficar em um terceiro país em quarentena para poder entrar aos EUA.

"Ainda estamos dizendo que se você está chegando aos EUA de um país com restrição você não pode ter estado (naquele país) nos últimos 14 dias. Não mudamos isso, mas é algo que iremos reconsiderar", disse Fauci, também em resposta ao Estadão. "Ainda continua a ser 14 dias, mas a pergunta é apropriada, porque para ser coerente provavelmente deve estar de acordo com a (nova) recomendação. Eu imagino que o CDC, se já não estiver fazendo isso, olhará em breve para essa questão e tentará igualar", afirmou o epidemiologista.

Os EUA exigem que todos os passageiros internacionais apresentem um teste negativo de covid-19 para entrar no país. Também é exigida quarentena na chegada. Com relação à restrição de viagens, os viajantes do Brasil, Europa, Reino Unido, Irlanda, China, Irã e África do Sul não podem embarcar diretamente aos EUA. Há exceções previstas para americanos, residentes permanentes, alguns familiares diretos de americanos e certos tipos de visto diplomático.

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