Michael Reynolds/EFE/EPA
Michael Reynolds/EFE/EPA

Variantes ameaçam prolongar crise sanitária nos EUA

Cientistas acreditam que coronavírus veio para ficar e novas mutações surgirão

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 03h00

NOVA YORK - Há semanas o estado de espírito em grande parte dos Estados Unidos é de animação. Os casos, hospitalizações e mortes em decorrência do coronavírus diminuíram drasticamente e milhões de pessoas têm sido vacinadas diariamente. Restaurantes, lojas e escolas reabriram. Alguns Estados, como o Texas e a Flórida, suspenderam totalmente as medidas de precaução.

De certo modo os americanos estão vencendo a guerra contra o coronavírus. Vacinas poderosas e a aceleração das  inoculações  garantem um eventual retorno à normalidade.

Mas está cada vez mais claro que os próximos meses serão dolorosos. As chamadas variantes vêm se espalhando, com mutações que tornam o coronavírus mais contagioso e em alguns casos mais letal. Mesmo quando as vacinas foram autorizadas no ano passado, abrindo caminho para um fim da pandemia, variantes surgiram no Reino Unido, África do Sul e Brasil. E novas variantes continuaram a surgir de repente, na Califórnia numa semana, em Nova York e Oregon na outra. À medida que criam raízes, essas novas cepas do coronavírus ameaçam retardar o fim da pandemia.

No momento, muitas vacinas parecem eficazes contra as variantes. Mas autoridades de saúde pública estão muito preocupadas que cepas futuras do vírus sejam mais resistentes à resposta imune, exigindo que os americanos tomem vacinas regularmente ou mesmo a produção de novas vacinas.

“Não temos uma evolução da nossa parte”, disse Devi Shridar, professor na Universidade de Edinburgh, Escócia. “Este patógeno parece estar sempre mudando de uma maneira mais difícil para  sufocá-lo.”

As autoridades admitem que há uma necessidade urgente de monitorar esses novos vírus à medida que eles avançam a passos lentos pelos EUA. A B.1.1.7, uma variante extremamente contagiosa que atingiu o Reino Unido e vem causando estragos na Europa continental, está se espalhando pelos EUA.

Testes genéticos limitados revelaram mais de 12.500 casos, muitos na Flórida e em Michigan. Desde 13 de março a variante foi responsável por 27% dos novos casos registrados em todo país, em comparação com 1% no início de fevereiro.

O governo do presidente Joe Biden prometeu um pagamento antecipado de US$ 200 milhões para intensificar a vigilância, uma injeção de recursos para permitir analisar 25 mil amostras de pacientes a cada semana para rastrear variantes do vírus. É uma meta ambiciosa. Em dezembro, o país estava sequenciando apenas algumas centenas de amostras por semana, tendo aumentado esse número para 9 mil por semana a partir de 27 de março.

Até recentemente, o aumento da variante B.1.1.7 era camuflado pelos números em queda de infecções em geral, iludindo os americanos com uma falsa sensação de segurança e levando a uma flexibilização prematura das restrições impostas, afirmam os pesquisadores.

“A melhor maneira de pensar na B.1.1.7 e outras variantes é tratá-las como epidemias separadas”, afirmou Sebastian Funk, professor de dinâmica da doença infecciosa na London School of Hygiene and Tropical Medicine. “Na verdade, estamos encobrindo o problema adicionando essas variantes na contagem do número geral de casos.”

Imaginava-se que o coronavírus mudava de forma lenta. Como todos os vírus,  haveria mutações e ele evoluiria em milhares de variantes, disseram os cientistas no começo da pandemia. Mas o patógeno desafiou essas previsões. “Esperávamos que o vírus mudasse. Mas não previmos o quão rápido isso ocorreria”, disse Michael Diamont, imunologista viral na Washington University em St. Louis.

Uma variante preocupa somente quando ela é muito contagiosa, provoca uma enfermidade mais grave ou bloqueia a resposta imune. As variantes identificadas no Reino Unido, África do Sul, Brasil e Califórnia estão dentro desse critério.

A variante B.1.1.7, a primeira a chamar atenção generalizada, é 60% mais contagiosa e 67% mais letal do que a forma original do vírus, de acordo com dados recentes. A variante não é diferente da original na maneira como se propaga, mas as pessoas infectadas absorvem uma carga maior do vírus e por mais tempo, disse Katrina Lithgoe, bióloga na Universidade Oxford. “Você fica mais infectado e por mais dias.”

Essa variante é tão contagiosa que o Reino Unido conseguiu reduzir o número de infectados apenas após quase três meses de lockdown e um agressivo programa de vacinação.

Nos EUA, as infecções começaram a declinar rapidamente em janeiro, levando muitos governos estaduais a autorizar a reabertura de empresas e flexibilizar as restrições. Mas os cientistas alertaram repetidamente que essa queda de casos não duraria. Depois de o número baixar para 55 mil casos e 1.500 mortes por dia, em meados de março, alguns Estados, especialmente Michigan, registraram um aumento dos contágios. Desde sábado, o número diário de casos chegou a 69 mil e a média semanal foi 19% mais alta do que a registrada duas semanas antes.

Embora muitas vacinas sejam eficazes contra a B.1.1.7, pesquisadores se mostram cada vez mais inquietos com outras variantes que contêm uma mutação chamada E484K.

Em estudos laboratoriais, as vacinas da Moderna e da Pfizer/ BioNTech parecem ligeiramente menos eficazes contra a variante B.1.351 identificada na África do Sul. Essa variante contém a mutação E484K, que parece permitir que o vírus se esquive da resposta imune. As vacinas produzidas pela Johnson & Johnson, AstraZeneca e Novavax são ainda menos potentes contra a B.1.351.

“Acho que dentro de um ou dois anos a E484K será a mutação mais preocupante”, disse Jesse Bloom, biólogo no Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle. A mutação altera ligeiramente a chamada proteína spike presente na superfície do coronavírus, tornando mais difícil para os antibióticos agarrarem e destruírem o invasor. A boa notícia é que o vírus parece ter poucos truques de sobrevivência e isso facilita para os cientistas encontrarem e bloquearem essas defesas. “Sinto-me animado com o fato de que não há muitas opções nesse caso”, disse Michel Nusenzweig, imunologista na Rockefeller University, em Nova York.

Em uma forma ou outra, o novo coronavírus veio para ficar, acreditam muitos cientistas. Múltiplas variantes podem estar circulando no país ao mesmo tempo, como é o caso dos coronavírus comuns do resfriado e da gripe. Mantê-los à distância exigirá uma vacinação anual, como a vacina da gripe.

A melhor maneira de deter o surgimento de variantes perigosas é manter baixo o número de casos e imunizar a vasta maioria do mundo. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.