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Mario Tama/Getty Images/AFP
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Variantes e vacinação lenta obrigam países a conviver com o coronavírus

Mais autoridades estão encorajando as pessoas a voltarem aos seus ritmos diários e fazer a transição para um novo normal. Mas os cientistas alertam que pode ser muito cedo para planejar estratégias de saída da pandemia

Sui-Lee Wee/The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 05h00

CINGAPURA - A Inglaterra suspendeu quase todas as restrições contra o novo coronavírus. A Alemanha está permitindo que pessoas vacinadas viajem sem realizar quarentena. O uso de máscaras deixou de ser obrigatório na Itália. Os shoppings continuam abertos em Cingapura.

Dezoito meses depois do surgimento do novo coronavírus, vários governos na Ásia e na Europa estão encorajando as pessoas a voltarem aos seus ritmos diários e fazer a transição para um novo normal em que metrôs, escritórios, restaurantes e aeroportos estão novamente lotados. Cada vez mais, o mantra é o mesmo: temos que aprender a conviver com o vírus.

Mesmo assim, os cientistas alertam que as estratégias de saída da pandemia talvez sejam prematuras. O surgimento de variantes mais transmissíveis significa que mesmo os países ricos com vacinas abundantes permanecem vulneráveis. Lugares como a Austrália, que fechou sua fronteira, estão aprendendo que não podem manter o vírus longe.

Em vez de abandonar seus planos de ação, autoridades principalmente na Ásia e na Oceania, que conseguiram controlar o vírus antes das chegadas das vacinas,  estão começando a aceitar que lockdowns e restrições contínuas são uma parte necessária da recuperação. As pessoas estão sendo encorajadas a mudar sua perspectiva da pandemia e se concentrar em evitar doenças graves e mortes em vez de infecções. E os países com ambições de acabar completamente com os casos de covid-19 estão repensando essas políticas.

“Você precisa dizer às pessoas: vamos ter muitos casos”, disse Dale Fisher, professor de medicina da Universidade Nacional de Cingapura que chefia o Comitê Nacional de Prevenção e Controle de Infecções do ministério da Saúde de Cingapura. “E isso faz parte do plano - temos que deixar para lá.”

O exemplo de Cingapura

Durante meses, muitos residentes em Cingapura, a pequena cidade-estado do sudeste asiático, estudaram cuidadosamente os detalhes de cada novo caso de covid-19. Havia uma sensação palpável de medo quando as infecções atingiram dois dígitos pela primeira vez. E com o fechamento das fronteiras, também houve um sentimento de derrota, pois mesmo as medidas mais cuidadosas não eram suficientes para prevenir a infecção.

“Nosso povo está cansado da batalha”, escreveu um grupo de ministros de Cingapura em um artigo de opinião no jornal Straits Times em junho. “Todos estão perguntando: quando e como a pandemia terminará?”

As autoridades em Cingapura anunciaram planos para reduzir gradualmente as restrições e traçar um caminho para o outro lado da pandemia. Os planos incluíam a mudança para monitorar o número de pessoas que ficam muito doentes, quantas precisam de cuidados intensivos e quantas precisam ser intubadas, em vez de infecções.

Essas medidas já estão sendo testadas.

Os surtos têm se espalhado por meio de várias salas de karaokê e um grande porto de pesca; e na terça-feira, Cingapura anunciou um maior rigor das medidas, incluindo a proibição de comer em restaurantes. O ministro do Comércio, Gan Kim Yong, disse que o país ainda estava no caminho certo, comparando as últimas restrições a “bloqueios de estradas” em direção à meta final.

Cingapura imunizou totalmente 49% de sua população e citou Israel, que está mais à frente na vacinação com 58%, como modelo. Israel se concentrou em doenças graves, uma estratégia que as autoridades chamam de "supressão suave". E também está enfrentando seu próprio aumento acentuado de casos, de um dígito há um mês para centenas de novos casos por dia. O país recentemente voltou a exigir o uso de máscaras em ambientes fechados.

“É importante, mas é muito irritante”, disse Danny Levy, 56 anos, funcionário público israelense que estava esperando para ver um filme em Jerusalém na semana passada. Levy disse que usaria sua máscara dentro do cinema, mas que achou frustrante a volta das restrições ao mesmo tempo em que novas variantes do vírus estavam entrando no país por causa da fraca testagem e supervisão dos viajantes que chegavam.

Risco para não vacinados

Michael Baker, epidemiologista da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, disse que os países pegando atalhos no caminho para a reabertura estão colocando pessoas não vacinadas em risco e brincando com a vida.

“Neste momento, na verdade, acho muito surpreendente que os governos necessariamente decidam que sabem o suficiente a respeito de como esse vírus se comportará nas populações para escolher, 'Sim, vamos viver com ele''', disse Baker, que ajudou a elaborar a estratégia de eliminação da covid-19 da Nova Zelândia.

Grande parte do mundo em desenvolvimento ainda enfrenta infecções crescentes, dando ao vírus uma oportunidade maior de se replicar rapidamente; o que, então, aumenta os riscos de mais mutações e propagação. Apenas 1% das pessoas em países de baixa renda receberam uma dose de vacina, de acordo com o projeto Our World in Data.

Na Austrália, vários legisladores estaduais sugeriram este mês que o país havia chegado a “uma bifurcação no caminho” em que precisava decidir entre restrições persistentes e aprender a conviver com as infecções. Eles disseram que a Austrália talvez precise seguir grande parte do mundo e desistir de sua estratégia para zerar os casos de covid-19.

Gladys Berejiklian, a líder do estado australiano de Nova Gales do Sul, rejeitou imediatamente a proposta. “Nenhum estado ou qualquer país do planeta pode viver com a variante Delta quando nossas taxas de vacinação são tão baixas”, disse ela. Apenas cerca de 11% dos australianos com mais de 16 anos estão totalmente imunizados contra a covid-19.

O primeiro-ministro Scott Morrison também recusou os apelos por uma mudança nos protocolos contra a covid-19 do país. Depois de anunciar um plano de quatro fases para retornar à vida normal em 2 de julho, ele insistiu que a força da variante Delta exige um adiamento indefinido.

Em lugares onde as vacinas estão amplamente disponíveis há meses, como a Europa, os países apostaram alto em seus programas de vacinação como uma saída para a pandemia e a chave para manter as hospitalizações e mortes baixas.

Autoridades em Cingapura, que relataram um recorde de 182 infecções transmitidas de forma local na terça-feira, dizem que o número de casos deve aumentar nos próximos dias. O surto parece ter atrasado, mas não frustrado os planos de uma reabertura em fases.

“Você dá às pessoas uma sensação de progressão”, disse Ong Ye Kung, ministro da Saúde de Cingapura, este mês, “em vez de esperar por aquele grande dia em que tudo abrirá e, então, se enlouquecerá”. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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