Vaticano considera "pouco convincentes" as provas de Powell

O Vaticano considerou "pouco convincentes" as acusações contra o Iraque expostas perante o Conselho de Segurança da ONU pelo secretário de Estado americano, Colin Powell, e anunciou que o papa João Paulo II "fará tudo o que estiver a seu alcance para evitar a guerra". O papa "fará tudo o que estiver a seu alcance, também com o governo do Iraque", para evitar essa guerra, disse hoje à rádio do Vaticano monsenhor Renato Martino, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz. Martino, que durante 16 anos foi representante do Vaticano junto às Nações Unidas, disse que a reunião entre o pontífice e o vice-primeiro-ministro iraquiano, Tarek Aziz,"poderia ser um passo em direção à distensão". A atividade da Santa Sé, disse Martino, prosseguirá tanto na frente americana como na iraquiana, já que a missão do papa "é recordar a todo o mundo que com a guerra tudo está perdido, e que a guerra é uma aventura sem retorno". A Santa Sé também pediu a Washington, segundo afirmou Martino à Rádio Vaticano, que as "provas" anunciadas por Powell sejam "entregues aos inspetores" da ONU... e "que estes cumpram o seu dever". "As provas de Powell perante a ONU não me parecem tão convincentes como as apresentadas pelos EUA em 1962, quando estava em curso a crise dos mísseis em Cuba", indicou o prelado. "Só agora - acrescentou - chegam as provas. Que sejam entregues aos inspetores e estes cumpram o seu dever. Só se o Iraque não cumprir a ONU tem outra resolução a respeitar e deve decidir sobre as sérias conseqüências às quais se refere esta resolução aprovada no outono (do hemisfério norte) passado".Consultado sobre se acha que uma guerra no Golfo está mais próxima, o arcebispo observou que "existe ainda a resolução 1441 a ser respeitada: é o meio mais eficaz de evitar a guerra, já que dá aos inspetores o poder de destruir ou tornar inofensivas as armas que encontrarem". Mas a mesma resolução, observou Martino, "exige que os Estados apóiem os inspetores e dêem todas as informações que têm em seu poder sobre as armas de destruição em massa". E reiterou: "As provas americanas devem ser entregues aos inspetores".A posição do Vaticano sobre o discurso de Powell foi reforçada hoje pelo jornal pontifício L´Osservatore Romano, o qual escreveu que as "acusações" contra o Iraque "não convencem".Em um editorial em sua primeira página, o jornal destacou também que o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, "continua convencido de que a guerra é evitável, mas pede a Bagdá mais colaboração". "França, Rússia e China, membros permanentes do Conselho, com direito a veto, pediram que o trabalho dos inspetores prossiga e seja inclusive reforçado com um maior número de inspetores", afirmou o diário. L´Osservatore recordou que "esta posição conta com o apoio da Alemanha", que este mês ocupa a presidência de turno do Conselho de Segurança. Por sua vez, o cardeal Roger Etchegaray, um dos principais colaboradores do papa, declarou hoje que a próxima audiência do chefe supremo da Igreja Católica com o vice-premier iraquiano "será certamente um passo importante em direção a uma paz frágil, mas necessária para todos, especialmente no Oriente Médio". O cardeal, mencionado como possível enviado a Bagdá no caso de João Paulo decidir enviar uma mensagem pessoal a Saddam Hussein, fez estas afirmações durante uma transmissão da televisão estatal italiana RAI. Membro da Congregação para as Igrejas Orientais, Etchegaray afirmou também que se havia reunido pessoalmente com Aziz "pelo menos duas vezes em Bagdá" e definiu o prestigioso membro do governo de Saddam como "um cristão convicto". Nos últimos dias também se especulou sobre uma eventual viagem do próprio papa a Bagdá - possibilidade desmentida pela Santa Sé, que afirmou que tal hipótese nunca foi considerada.

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