Vaticano consolida legado de Oscar Romero

Assassinado em 1980, salvadorenho que lutou contra junta militar e extremismo da esquerda é proclamado mártir

ELAHE, IZADI, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2015 | 02h03

O arcebispo Oscar Romero, de El Salvador, acaba de ser proclamado mártir pelo papa Francisco. O anúncio foi recebido com enorme emoção no país, que viu o sacerdote assassinado e onde ele é uma figura venerada.

O caminho de Romero até tornar-se um defensor declarado dos pobres acabou com o seu assassinato, encomendado por políticos de direita. Ele estava celebrando a missa quando foi alvejado no coração. Sua morte foi o estopim da guerra civil que durou 12 anos em El Salvador e deixou 75 mil mortos.

Na época, Romero foi considerado um dos salvadorenhos de maior projeção que criticava publicamente os militares e o governo do país, denunciando a violência dos extremistas da direita e da esquerda.

O começo de sua carreira, no entanto, foi bem diferente; Romero, que estudou em Roma e em El Salvador, foi ordenado em 1942. Antes de se tornar arcebispo de San Salvador, em 1977, era considerado um sacerdote conservador numa época em que muitas freiras e padres latino-americanos assumiam posições cada vez mais críticas a respeito do tratamento dispensado pelos governos aos pobres, dando origem a um movimento que foi chamado Teologia da Libertação.

A ascensão de Romero a arcebispo de San Salvador foi recebida inicialmente com alívio pela aristocracia e pelo governo, acreditando que ele deixaria de opor-se à situação. Mas a violência continuou a alastrar-se no país. Rutilio Grande, um sacerdote jesuíta e amigo de Romero, foi morto em 1977, quando ajudava a organizar os camponeses salvadorenhos. Ele passou a criticar publicamente a junta que governava o país e a denunciar a violência dos militantes esquerdistas.

Em fevereiro de 1980, escreveu uma carta ao presidente Jimmy Carter, na qual descreveu as violações dos direitos humanos perpetrados pelos militares, pedindo ao governo americano que reconsiderasse seu apoio à junta em El Salvador.

"A contribuição do seu governo em lugar de promover uma justiça mais ampla e a paz em El Salvador", escreveu, "sem dúvida aumentará a injustiça e a repressão contra as organizações populares que lutam pelo respeito dos direitos humanos fundamentais".

Ao denunciar abertamente a violência militar contra os civis acabou pondo em risco a própria vida: semanas antes do seu assassinato, ele disse aos repórteres que andara recebendo ameaças de morte. No dia 23 de março de 1980, Romero pronunciou uma homilia, hoje famosa, em que instava os soldados a olhar para a própria consciência e a desprezar as ordens de matar seus concidadãos salvadorenhos.

"Irmãos, vocês estão matando os seus compatriotas. Nenhum soldado precisa obedecer à ordem de matar", ele disse. "Está na hora de vocês tomarem consciência. Em nome de Deus e em nome do povo sofredor eu imploro, peço, ordeno a vocês que parem com a repressão".

As autoridades criticaram asperamente o sermão, afirmando que Romero estava cometendo o crime de incitação à rebelião. Um dia mais tarde, Romero celebrava missa na capela de um hospital quando um homem armado disparou um tiro em seu coração.

Calcula-se que de 25 mil a 50 mil pessoas participaram do funeral de Romero, onde uma bomba explodiu e começou um tiroteio. Como Christopher Dickey, do Washington Post, informou de San Salvador na época, a "multidão presente ao funeral" logo "se transformou num inferno provocado pelo pânico" que deixou pelo menos 40 mortos.

Um ano depois do fim da guerra, em 1992, uma comissão da ONU concluiu que o ex-major do Exército Roberto D'Abuisson, que morreu de câncer em 1992, ordenara a morte de Romero. Mas muitos em El Salvador suspeitam que na realidade que o assassinato de Romero foi orquestrado por outras figuras poderosas da sociedade.

Desde a guerra, a imagem de Romero passou a ser venerada por pessoas de esquerda em toda a América Latina. Em El Salvador, que, por dezenas de anos após a guerra, teve um governo de direita, a morte do arcebispo não recebeu qualquer manifestação oficial. Somente em 2010, com a eleição do primeiro presidente de esquerda no país, Romero recebeu este reconhecimento. O arcebispo é venerado em grande parte de El salvador, da América Latina e do mundo católico. Mas sempre foi menosprezado pelos ricos, pela direita ferrenha que se sentiu ameaçada pela defesa dos pobres e o pintava como marxista.

Alguns consideraram o seu legado controvertido, inclusive no Vaticano, e se opunham energicamente à Teologia da Libertação, que dá prioridade à luta contra a opressão econômica e social.

Embora Romero não defendesse o movimento, com o qual seu legado tanto se identifica, foi eleito como figura simbólica pelos membros da esquerda. A nova designação de Romero poderá assinalar uma aproximação do Vaticano à Teologia da Libertação com o papa Francisco.

Semanas antes de sua morte, Romero contou a um repórter que frequentemente era ameaçado de morte. "Se me matarem, me manifestarei ao povo salvadorenho", disse. "Se as ameaças se concretizarem, a partir desse momento ofereço o meu sangue a Deus pela redenção e ressurreição de El Salvador. Que o meu sangue seja uma semente de liberdade e o sinal de que a esperança logo se tornará realidade". A beatificação de Romero será em El Salvador ainda este ano. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.