Vaticano defende Bento XVI de críticas israelenses

O Vaticano defendeu hoje o papa Bento XVI de uma série de críticos israelenses que acusaram o pontífice alemão de não expressar remorso suficiente pelo Holocausto - uma controvérsia que ameaça ofuscar uma peregrinação papal pelo Oriente Médio, que tem como objetivo unir diferentes religiões. O Holocausto é apenas um dos muitos campos minados que Bento XVI atravessa enquanto visita a região. Ele também tem de acalmar a ira dos muçulmanos a respeito de comentários feitos no passado e tem recebido pedidos dos palestinos para fazer mais pelo avanço de sua causa contra Israel.

AE-AP, Agencia Estado

12 de maio de 2009 | 19h12

O papa proferiu hoje mensagens de paz durante sua visita a locais sagrados para os muçulmanos e judeus em Jerusalém - o Domo da Pedra e o Muro das Lamentações. Porém, seu discurso proferido ontem no Memorial Nacional do Holocausto atraiu as maiores atenções. Parlamentares acusaram Bento XVI de "acobertar" o genocídio nazista. Jornais reprovaram o papa por ele não ter se desculpado pelo o que muitos em Israel veem como a indiferença católica durante a Segunda Guerra Mundial.

As próprias ações do papa - Bento XVI participou da Juventude Hitlerista e do Exército nazista - também foram colocadas à sombra. "O papa falou como um historiador, como alguém fazendo uma observação secundária sobre coisas que não devem acontecer. Mas o que se pode fazer? Ele é parte disso", disse o presidente da Assembleia Legislativa, Reuven Rivlin. Em discurso no Memorial do Holocausto Yad Vashem, o papa disse que o grito dos que foram mortos pelo regime sob o qual ele cresceu "continuam ecoando em nossos corações".

No entanto, dois funcionários do memorial criticaram o pontífice por não ter usado as palavras "nazistas" e "assassinato" em seu discurso. Jornais israelenses fizeram muitas críticas hoje. "Qualquer um teria esperado que os cardeais do Vaticano preparassem um texto mais inteligente para seu chefe", afirmou o colunista Tom Segev.

O porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, defendeu Bento XVI dizendo que o papa já havia mencionado suas raízes alemãs, especificamente quando visitou uma sinagoga em Colônia, na Alemanha, em 2005, e o campo de concentração de Auschwitz, no ano seguinte. "Ele não pode mencionar tudo de novo a cada vez que faz um discurso", disse Lombardi a jornalistas em Jerusalém.

O Holocausto é um assunto extremamente sensível em Israel, país foi fundado após o genocídio nazista de seis milhões de judeus europeus. Mais de 200 mil sobreviventes do Holocausto ainda vivem em território israelense. O papa do período da guerra, Pio XII, é criticado por judeus por ter feito pouco para evitar as mortes, uma acusação negada pela igreja. A história de vida de Bento XVI durante a guerra também causa desconforto em Israel, mesmo ele tendo afirmado que foi forçado a se juntar à Juventude Hitlerista e de ter desertado do Exército. Recentemente, ele irritou líderes judaicos ao revogar a excomunhão de um bispo de nega o Holocausto.

Palestinos

Também houve momentos tensos com palestinos. Durante um encontro na noite de ontem, o juiz islâmico Taysir Tamimi tomou o microfone e fez um discurso contra Israel. O papa não entendeu as críticas feitas em árabe e permaneceu em silêncio. O Vaticano disse esperar que o incidente não "cause danos à missão do Santo Padre". Apesar das controvérsias, Bento XVI tem sido cordialmente recebido por autoridades israelenses, clérigos muçulmanos e cristãos em cada parada de sua viagem.

O papa levou hoje sua mensagem de reconciliação ao local religioso mais disputado da Terra Santa pedindo que israelenses e palestinos se comprometam com um "diálogo sincero com o objetivo de construir um mundo de justiça e paz". Ele visitou o Domo da Pedra, de onde muçulmanos acreditam que o profeta Maomé ascendeu ao céu, e o contíguo Muro das Lamentações, reverenciado pelos judeus como remanescente do antigo Templo de Jerusalém.

A visita incluiu uma reunião particular com o principal clérigo islâmico da Terra Santa, o grão-mufti Mohammed Hussein, que disse ter falado com o papa sobre o sofrimento palestino. "Pedimos por justiça nesta Terra Santa", afirmou. Perguntado como Bento XVI respondeu, ele disse: "Sentimos que ele foi receptivo". O papa ainda celebrou uma missa para milhares de seguidores num vale abaixo de onde, acredita-se, Jesus rezou com seus discípulos antes de ser preso.

Chegada

Bento XVI chegou no papamóvel sorrindo e abençoando a multidão. Ele começou a missa com sua tradicional saudação em latim, "Pax Vobis", ou "a paz esteja com vocês". Em sua homilia, o papa reconheceu "as dificuldades, a frustração, a dor e o sofrimento que muitos de vocês têm enfrentado". "Eu espero que minha presença aqui seja um sinal de que vocês não foram esquecidos", afirmou. Bento XVI pediu aos cristãos da Terra Santa - que, em meio a judeus e muçulmanos têm emigrado em grande escala - que resistam. "Na Terra Santa há espaço para todos."

Também hoje, o papa afirmou aos dois principais rabinos de Israel que a Igreja Católica está "comprometida de maneira irrevogável" com uma "reconciliação genuína e duradoura entre cristãos e judeus". Os judeus foram perseguidos pela igreja católica durante séculos. A igreja tradicionalmente os culpava por rejeitar e matar Jesus Cristo, opinião que foi revista nos anos 1960, quando houve rejeição ao antissemitismo e o início de diálogos com outras religiões.

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