Vaticano pede que fiéis não financiem Anistia Internacional

Após novo posicionamento da ONG a favor da descriminalização do aborto, cardeal afirma que instituições da Igreja e católicos não devem mais doar nada à Anistia

Agencia Estado

18 Junho 2007 | 11h59

Um cardeal do Vaticano disse nesta quarta-feira, 13, que os católicos romanos deveriam parar de doar dinheiro para Anistia Internacional após a adoção da nova política que permite às mulheres ter acesso a procedimentos de aborto, pedido rejeitado logo em seguida pela ONG. A organização de direitos humanos reviu sua posição neutra, de longa data, sobre o assunto em abril, e adotou uma política que estimulasse governos a garantir a descriminalização do aborto para mulheres em casos de estupro, incesto ou quando a gravidez representa risco para a vida da mãe ou sua saúde. O cardeal Renato Marino, que encabeça o departamento de justiça e paz do Vaticano, criticou a política, dizendo que ela representava uma traição às metas da Anistia de promover os direitos humanos pelo mundo. "A conseqüência inevitável desta decisão, de acordo com o cardeal, será a suspensão de qualquer financiamento para a Anistia a partir de organizações católicas e católicos individuais", de acordo com um pronunciamento do gabinete de Martino. A Anistia alega que nunca recebeu qualquer financiamento do Vaticano ou de organizações católicas romanas oficiais. Rejeição "A Igreja Católica, por meio de um relato mal representado da nossa posição sobre aspectos seletivos do aborto, está colocando em perigo o trabalho com os direitos humanos", disse Kate Gilmore, subsecretária-geral da Anistia. Gilmore afirmou que a Anistia não está promovendo o aborto como um direito universal, e sim salientando que as mulheres têm o direito de escolher o aborto quando seus direitos humanos forem violados, especialmente em caso de estupro e incesto. "Estamos dizendo em linhas gerais que criminalizar o gerenciamento que a mulher faz dos seus direitos reprodutivos é a resposta errada", disse ela, por telefone, de Londres. "Vivemos junto com as experiências de vida das pessoas. Não comandamos uma teocracia. Temos de lidar com a sobrevivente de estupro em Darfur que, por ter sido deixada com uma gravidez como resultado do inimigo, é ainda mais colocada no ostracismo por sua comunidade", exemplificou ela. "Se o cardeal fosse a Darfur e se colocasse entre (vítimas de estupro) e as pedras atiradas contra elas, aí ele poderia falar outra vez sobre se a Anistia tem ou não integridade para se manter firme pelos direitos humanos", acrescentou. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que ocorrem por ano no mundo cerca de 45 milhões de abortos não-naturais, dos quais 19 milhões em condições de insegurança. Estima-se que 68 mil mulheres morram por ano devido à prática. Gilmore acusou o Vaticano de tentar injustamente "excomungar" a Anistia, mas afirmou que a ONG vai "continuar fazendo campanha pela proteção da Igreja Católica" em áreas onde houver discriminação religiosa. "Defendemos o direito da Igreja de tratar de crenças morais. Mas um projeto de direitos humanos é para tratar do Estado, do estado de direito, e para criar um ambiente no qual as pessoas possam fazer escolhas morais como indivíduos", disse a ativista. "Temos sujeira debaixo da unha, e o sangue e a dor das pessoas às quais estamos respondendo".

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