Vazamento ajuda rede Al-Qaeda, dizem EUA

Publicação de lista de locais estratégicos para os americanos expõe instalações a ataques, afirma porta-voz do Departamento de Estado

Denise Chrispim Marin CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

O Departamento de Estado qualificou de "irresponsável" a divulgação, pelo site Wikileaks, da lista de locais do mundo considerados estratégicos pelos Estados Unidos. Ao avaliar o impacto da ação, o porta-voz da diplomacia americana, Philip Crowley, afirmou que o WikiLeaks extrapolou seu objetivo de desafiar os EUA e transformou pontos vitais para outros países em alvos de possíveis ataques da rede terrorista Al-Qaeda.

"Isso é uma irresponsabilidade. Uma informação é classificada como secreta por uma boa razão, especialmente quando envolve infraestrutura que apoia nossa economia e a de outros países", afirmou Crowley. "O que Julian Assange (fundador do WikiLeaks) divulgou equivale a uma lista de alvos que será de interesse de grupos como a Al-Qaeda", completou.

O Departamento de Estado classifica o vazamento dos 251 mil telegramas diplomáticos pelo WikiLeaks como um "ato criminoso" de Assange, a quem se refere como um "anarquista". Em sua reação, o governo americano vem insistindo que a divulgação desses textos pôs em risco as pessoas mencionadas - em boa parte, informantes da diplomacia americana - e as negociações em curso sobre temas de relevância regional ou mundial. Na mesma linha, o governo britânico condenou novamente ontem o vazamento pelo seu prejuízo à segurança nacional dos EUA.

Para Moisés Naim, sócio sênior do Carneggie Endowment for Internacional Peace, o último vazamento do WikiLeaks não foi mais grave do que os anteriores. A lista de locais estratégicos para os EUA, seja do ponto de vista de infraestrutura como de fornecimento de minérios e medicamentos, não é uma novidade para especialistas na área internacional, ponderou ele. Além disso, qualquer país terá sua própria lista de recursos no exterior dos quais depende. Ministro de Comércio e Indústria da Venezuela nos anos 80 e 90, Naim considerou estranha apenas a ausência das reservas de petróleo e gás de seu país nessa lista. "Qualquer terrorista pode identificar alvos no mundo que afetariam interesses americanos em uma consulta à internet. Não precisaria de uma lista como a divulgada pelo WikiLeaks", afirmou.

NEGATIVA...

Thomas Friedman

Colunista do "New York Times"

OK, admito. Gosto de ler correspondência alheia, como qualquer pessoa. Então, os telegramas do WikiLeaks foram uma leitura fascinante para mim. O que está nas entrelinhas, porém, é outro assunto: os EUA estão perdendo poder. Geopolítica é uma questão de influência. E os americanos não podem estar a salvo no exterior se não mudarem seu comportamento na própria casa. Mas a política no país nunca conecta os dois aspectos. Os EUA perdem sua influência por causa de seus vícios no petróleo do Oriente Médio e no crédito chinês - e o WikiLeaks mostra o sapo que o país tem de engolir por esses motivos.

... POSITIVA

Albert Hunt

Editor executivo da Bloomberg News

O WikiLeaks é como uma história em que paixões nos cegam para lições. Desde o vazamento dos telegramas diplomáticos, ocorreram discussões sobre constrangimentos de países, se Julian Assange deveria processado e se a imprensa foi responsável. Todas erram o alvo. Não há dúvidas de que esses documentos complicarão a diplomacia americana por certo período. Déspotas deverão se afastar. Mais do que expor inépcia, porém, os documentos secretos transmitem uma imagem positiva sobre a política e a diplomacia americanas. Juntamente com a boa fofoca, a maioria dos telegramas revelou similar profissionalismo, provavelmente para a decepção dos fãs do WikiLeaks.

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