Vazio na Argentina

Diferentemente de muitos figurões da política argentina, Néstor Kirchner não era um carismático ou dado a "pavonice". Alto, sóbrio e um tanto desengonçado, fez a carreira na longínqua Província de Santa Cruz, na Patagônia, origem que lhe valia o apelido pouco lisonjeiro de "pinguim". Só despontou na política argentina na acidentada eleição de 2003, quando Carlos Menem, esse sim movido a holofotes, repentinamente se retirou do segundo turno, mordido pela derrota quase certa para esse novato nos palcos nacionais.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Kirchner, no entanto, compensou a sisudez pela habilidade política, para se tornar o governante mais influente na Argentina desde Juan Domingos Perón, o caudilho que dominou a vida nacional nas décadas de 40 e 50. Sua súbita saída de cena priva o país de um de seus operadores mais sagazes, senão tempestivos, e deixa sua mulher, Cristina, sem seu cúmplice mais fiel no projeto de redefinir o peronismo para tentar salvá-lo.

Kirchner passou de 2003 a 2007 consertando o estrago econômico argentino, incluindo o maior calote da dívida externa da história financeira. Enquanto isso, também foi consolidando seu poder sobre a máquina do governo e as instituições políticas da Argentina.

Depois de Menem. Não é nenhum segredo que os Kirchners mantinham, entre si, um projeto de permanecer pelo menos 16 anos no poder. Não era impensável.

Depois dos debacles dos anos 90 e da administração personalista de Menem, os partidos políticos argentinos ficaram enfraquecidos. Houve 6 presidente nos 18 meses antes de Néstor Kirchner assumir em 2003. De certa forma, a democracia argentina estava desmoralizada.

E, quando os partidos fraquejam, abrem-se as portas para mandatários de pulso forte. Assim, entrou Kirchner, um antes obscuro governador, que se tornou um dos maiores políticos nacionais, com seu controle do Partido Justicialista (peronista) e aliança com os sindicatos. Cristina herdou a posição combativa, mas não a habilidade do marido, e logo se atracou com todos - dos fazendeiros à imprensa, que deixou de aplaudi-la.

A morte de Kirchner, que nutria sonhos de voltar à Casa Rosada, sucedendo a Cristina em 2012, implodiu o pacto Kirchner e escancarou as portas para a sucessão. Mal nas pesquisas (com menos de 50% de aprovação) a sorte de Cristina está à deriva, sem sinalização clara.

Na melhor hipótese, será forçada a moderar sua política e negociar com a oposição. Ou pode endurecer, o que trará mais conflito. Qualquer que seja o desfecho, sem Kirchner cresce a neblina da incerteza sobre o segundo maior país da América do Sul.

É COLUNISTA DO "ESTADO" E CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.