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Veja os possíveis cenários que podem surgir após a morte do líder do Taleban

Segundo especialistas, morte de Akhtar Mansour por um ataque americano com drone deve repercutir com força na região instável

O Estado de S. Paulo

23 Maio 2016 | 10h25

ISLAMABAD - A morte do líder do Taleban, o mulá Akhtar Mansour, em um ataque aéreo com drones americanos no Paquistão pode repercutir com força na região instável, segundo especialistas. O serviço afegão de inteligência e fontes do taleban confirmaram no domingo a morte de Mansour, líder rebelde e hostil às negociações de paz.

Luta pela sucessão

O mulá Mansour tomou as rédeas do Taleban em julho de 2015, após o anúncio tardio da morte do fundador desse movimento islâmico, o mulá Omar, ocorrida dois anos antes. Muitos de seus rivais da época poderiam estar novamente na fila de sucessão. Entre eles figuram como favoritos o filho do mulá Omar, o mulá Yacub, considerado antes jovem demais e inexperiente para ocupar o cargo, assim como o irmão de Omar, o mulá Abdul Manan Akhund.

Os seguidores do mulá Mansour também poderiam ser sucessores potenciais, como o influente líder religioso Haibatullah Akhundzada ou Sirajuddin Haqqani, atual líder da rede Haqqani, um grupo aliado aos taleban. A rede é considerada por Washington como responsável por alguns dos maiores e mais mortíferos atentados perpetrados no Afeganistão nos últimos dez anos.

"O momento de tentar se apoderar de todo o movimento pode ter chegado para os Haqqanis", afirma o analista paquistanês Amir Rana.

Divisão dos taleban

Mansour se mostrou capaz de submeter os dissidentes e de eliminar seus rivais. Em 2015, o mulá Dadullah, um importante líder dissidente, foi morto durante um tiroteio com partidários de Mansour. Outro rival, o mulá Rasul, criador de uma facção taleban dissidente, teria sido detido pelas Forças Armadas do Paquistão, embora seus partidários continuem lutando em seu nome.

Com a confirmação da morte de Mansour, é muito provável que estas disputas sejam reacesas, segundo os especialistas.

Segurança

"Se isso permitir emergir a facção moderada, poderia ajudar nos processos de paz", afirma o autor e especialista paquistanês Ahmed Rashid. Uma retomada das lutas internas poderia trazer um descanso para as forças de segurança afegãs, atualmente sob forte pressão, mas também poderia ter consequências a longo prazo.

"Primeiro, o mulá Omar, agora o Mansour. Quando se elimina o núcleo de um movimento, este pode começar a rachar", aponta Imtiaz Gul, diretor do CRSS, um instituto de pesquisa paquistanês especializado em segurança.

Segundo Rana, a morte do mulá Mansour também poderia supor o fortalecimento de grupos como o Estado Islâmico ou o Movimento Islâmico do Uzbequistão. Mas, visto o ocorrido após o anúncio da morte do mulá Omar e a nomeação do mulá Mansour, a morte deste também provoca receios sobre uma nova onda de atentados.

Consequências para o Paquistão

O Paquistão foi um dos principais aliados dos taleban quando estes dominaram o Afeganistão entre 1996 e 2001, e mantém uma forte influência sobre o movimento.

Em março, o conselheiro de Assuntos Exteriores do Paquistão, Sartaj Aziz, reconheceu publicamente pela primeira vez que seu país dava asilo aos dirigentes dos taleban afegãos, afirmando que isso permite a Islamabad pressionar os insurgentes para que negociem.

Mas os diálogos de paz parecem estagnados, apesar da entrada, em janeiro, de representantes dos EUA e da China na discussão do processo de paz junto ao Afeganistão e ao Paquistão.

Diferentemente da maioria dos ataques anteriores com drones, o ataque americano de sábado aconteceu no centro do território paquistanês, e não na zona da fronteira com o Afeganistão, o que cria especulações sobre uma possível autorização de Islamabad.

A última rodada de conversações, que aconteceu na capital paquistanesa na quarta-feira, terminou sem nenhum avanço claro. A obstinação do mulá Mansour poderia ter provocado sua queda.

"Havia um acordo que estabelecia que se os taleban se negavam a negociar, então o Paquistão cooperaria nas operações contra eles. Algo com o que se comprometeu", afirma o analista Amir Rana. /AFP

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