Velho partido precisa de uma visão moderna

Apesar das mudanças que ocorreram após as eleições de 2000, ainda há muitos dinossauros do PRI abrigados em governos estaduais

ENRIQUE , KRAUZE , THE WASHINGTON POST, É EDITOR DA REVISTA LETRAS LIBRES, ESCRITOR , ENRIQUE , KRAUZE , THE WASHINGTON POST, É EDITOR DA REVISTA LETRAS LIBRES, ESCRITOR , O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h08

Análise

Muitas pesquisas previram que o vencedor seria Enrique Peña Nieto, o jovem candidato do velho Partido Revolucionário Institucional (PRI), cuja imagem com frequência é associada à de um dinossauro. Muitos mexicanos farão duas perguntas: veremos a restauração do antigo regime, que Mario Vargas Llosa qualificou como a "ditadura perfeita"?E o próximo governo vai mudar as estratégias adotadas pelo atual presidente Felipe Calderón no combate ao tráfico de droga e o crime organizado? A resposta parece ser um rotundo "não".

Vargas Llosa estava certo quanto ao passado. Durante décadas o PRI funcionou como uma máquina bem azeitada, e só em algumas ocasiões sentiu necessidade de uma coerção ideológica ou física. A cada seis anos o presidente de saída, que exercia o poder absoluto, escolhia seu sucessor. O "sistema" proporcionou ao país estabilidade, ordem e crescimento, mas em detrimento do desenvolvimento político.

Ele engendrou o roubo e a corrução generalizada e um câncer que cresceu invisível dentro do corpo social: a cumplicidade governamental com o tráfico. O México era uma monarquia num disfarce democrático.

Mas essa "ditadura perfeita" morreu na eleição presidencial de 2000, com o PRI perdendo o poder após mais de 70 anos. O México mudou. O presidente hoje exercita somente seus poderes prescritos na Constituição. Temos um Congresso multipartidário e uma Suprema Corte independente. A entrada em vigor de uma lei sobre transparência reduziu a corrupção desenfreada no plano federal. Existe uma absoluta liberdade de expressão. O governo não mais organiza e controla as eleições; elas são regulamentadas por um instituto federal de cidadãos. O Banco do México é autônomo. Em resumo, é impossível retornar à era da "ditadura perfeita".

Mas isso não significa que o PRI tornou-se um partido moderno. Seus dinossauros estão abrigados em governos estaduais e nos gigantescos sindicatos públicos. Os monopólios, públicos e privados, também sobreviveram. Peña Nieto falou de um "PRI renovado", mas não explicou como vai desmantelar essas estruturas e práticas remanescentes.

Para combater a pobreza, a economia mexicana precisa se desenvolver a um nível acelerado. Hoje, crescimento anual de 3,9% é aceitável, mas insuficiente. Reformas estruturais, como a abertura do decadente setor petrolífero ao investimento externo e uma desregulamentação das rígidas leis trabalhistas, também são necessárias. Essas medidas ameaçarão a mentalidade do dinossauro, que sempre dependeu enormemente do clientelismo. Uma reforma política, permitindo a reeleição de deputados, senadores e prefeitos, todos limitados a um mandato, os tornaria sujeitos a prestar contas de seus atos no futuro.

Não está claro se Peña Nieto tem a vontade política e uma liderança persuasiva para confrontar os monopólios públicos e privados. E ele terá de enfrentar protestos das pessoas que se opõem furiosamente ao retorno do PRI ao governo. Elas podem alegar fraude para anular a eleição. O México resolverá essas divergências sem cair na violência política? Espero e acredito que podemos.

Preocupação. Mas um outro tipo de violência, exercida pelos narcotraficantes e outros criminosos, é que mais preocupa a sociedade. Em alguns Estados, os grupos criminosos pretendem controlar os governos locais, e fotos e descrições de crimes terríveis invadem as páginas do jornais e a mídia social.

No passado, o governo conseguiu combater a violência usando meios excessivamente autoritários não aceitos numa democracia.

Mas, com todos os benefícios, a democracia também logrou um resultado paradoxal. Ao descentralizar o controle, fortaleceu o poder local, o que beneficiou os criminosos locais e facilitou alianças entre uma polícia corrupta e os narcotraficantes. Uma reforma da estrutura policial, algo crucial, deverá exigir mais profissionalismo e honestidade das forças policiais.

Hoje, após suportarmos inúmeras crises econômicas, aprendemos a administrar nossas finanças, melhoramos os programas de saúde pública e de ajuda aos necessitados, mas ainda precisamos melhorar muito.

Independente do resultado desta eleição, o México observou um avanço genuíno e irreversível da democracia. Todas as medidas difíceis implementadas só foram possíveis em decorrência das mudanças que ocorreram a partir de 2000. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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