Charles Dharapak/AP
Charles Dharapak/AP

Presos doentes e velhos sobem custo de Guantánamo

Casa Branca admite que não tem um plano ou vontade política de fazer algo com os 40 internos que ainda restam na prisão 

Thomas Watkins, France Presse / Guantánamo, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 05h00

Eles chegaram à Baía de Guantánamo como homens jovens, capturados nos campos de batalha do Afeganistão e de outros lugares, no início da guerra contra o terrorismo empreendida pelos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001.

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Mais de 15 anos depois, a maioria dos reclusos do famoso presídio militar americano já chegou à maturidade, ou sofre com problemas de saúde ligados à idade, agravados por suas condições de vida anteriores à prisão.

Na semana passada, a Casa Branca pareceu reconhecer o óbvio: sem um plano, ou uma vontade política de fazer algo com os 40 internos que restam em Guantánamo, alguns deles podem ficar ali pelo resto da vida.

A instalação “tem falhas estruturais e de sistema que, se não forem tratadas, no futuro poderiam apresentar riscos à vida e à segurança de nossas forças de proteção e dos detidos”, declarou a Casa Branca a legisladores, ao pedir fundos adicionais para reconstruir a prisão. “Tampouco cumpre os requisitos da população de detidos envelhecidos”, acrescentou.

O Pentágono não divulga informações sobre os internos de Guantánamo, mas os arquivos divulgados pelo WikiLeaks e publicados no New York Times dão uma ideia.

Em média, a idade dos presos é de 46,5 anos. Mas as torturas, os conflitos e as más condições de vida anteriores a sua captura, juntamente com a reclusão atual, pioram seu estado de saúde.

O mais velho, o paquistanês Saifullah Paracha, completará 71 anos em agosto. O mais jovem é o cidadão saudita Hassan Mohammed Ali Bin Attash, que nasceu em 1985 e agora tem 32 ou 33 anos. Tinha apenas 16 ou 17 anos quando foi capturado em 2002. Nem o Pentágono nem a Baía de Guantánamo responderam às solicitações de comentários.

Rampa. Talvez o preso mais famoso de Guantánamo seja o suposto autor intelectual do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, hoje com 53 anos.

O bigode preto que usava quando foi capturado em 2003 cresceu até se tornar uma volumosa barba grisalha, que agora pinta de ruivo.

James Connel, advogado de Ramzi Binalshibh, acusado de ser um dos co-conspiradores de Mohammed, disse que notou alguns arranjos para os presos envelhecidos. “Alguns dos espaços para os encontros entre advogados e clientes agora têm rampas para cadeiras de rodas”, contou à agência France Presse, acrescentando que também viu alças para ajudar os reclusos a se levantarem do vaso sanitário. Mas, destacou, “há grande necessidade de um tratamento que não foi fornecido”.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) visita Guantánamo quatro vezes por ano para se assegurar de que a prisão cumpre com os padrões de detenção e para avaliar o tratamento dado aos presos.

“É importante garantir que se cumpra adequadamente com os requisitos de saúde e estamos comprometidos ativamente em um diálogo com as autoridades americanas sobre este tema”, disse Marc Kilstein, porta-voz do CICV em Washington. Entre as doenças crônicas ligadas à idade que podem se agravar pela reclusão estão insuficiência cardíaca, diabetes, problemas cognitivos e doença hepática.

Custos. Aos contribuintes americanos custa mais de US$ 450 milhões por ano manter os prisioneiros na Baía de Guantánamo. Essa cifra aumentará à medida que eles envelhecerem, indicou a especialista em Segurança da Anistia Internacional, Daphne Eviatar, já que aos Estados Unidos “é exigido, segundo o Direito Internacional, que deem tratamento médico a eles”.

“Ao mantê-los em Guantánamo, o governo dos Estados Unidos essencialmente está se comprometendo a cuidar deles pelo resto de suas vidas”, explicou. 

Muitos americanos desconhecem que seu país ainda tenha prisioneiros na instalação de Cuba.

Cinco deles foram acusados de conspiração para realizar os atentados de 2001 e estão sendo julgados por um processo especial assolado por desafios legais e demoras intermináveis. 

Dos restantes, dois foram acusados de outros crimes, dois foram condenados e cinco receberam ordens de libertação durante o governo de Barack Obama, mas ficaram presos sob o mandato de Donald Trump, que disse querer enviar os capturados do grupo Estado Islâmico para Guantánamo.

Mas a maioria – 26 reclusos – nunca foi acusada de nada e, contudo, é considerada perigosa demais para ser deixada em liberdade. 

Nove detidos já morreram em Guantánamo desde que a prisão abriu suas portas, em 2002, principalmente por suicídio, segundo os militares. Diante da situação, é pouco provável que essas mortes sejam as últimas. / AFP

 

PARA LEMBRAR

A prisão de Guantánamo foi instalada no interior de uma base militar dos EUA em Cuba em 2002, após a invasão do Afeganistão. O centro chegou a ter 775 prisioneiros, dos quais restam apenas 40. Fechar a prisão era uma promessa de campanha do então presidente Barack Obama, mas o governo americano nunca soube o que fazer com os detentos mais perigosos. A base tem 116 quilômetros quadrados e foi estabelecida em 1898, durante a Guerra Hispano-Americana. Após o conflito, a base foi alugada, em 1903, por pouco mais de US$ 5 mil anuais, mas Cuba sempre se negou a descontar os cheques enviados por Washington. Um acordo de 1934 estabelece que a área só poderá voltar ao regime cubano por negociações entre os dois países. 

 

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