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Velhos fantasmas

É preciso lembrar que teremos de lidar em 2017 com as consequências deste ano

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2016 | 05h00

Aos que torcem para que logo venha meia-noite, espero de coração que a virada traga novas alegrias. Mas é preciso lembrar que teremos de lidar em 2017 com as consequências deste ano - um ano em que nossa humanidade (compaixão, princípios e valores) foram testados à exaustão e os limites da barbárie e da falta de ética alargados talvez de forma irreversível. É um ano que nasce velho.

O magnata Donald Trump assumirá a Casa Branca e o posto de comandante-chefe da maior potência militar do mundo, com acesso ao arsenal nuclear e aos protocolos e códigos que permitem acionar um ataque de onde estiver. Ele é uma incógnita. Se cumprir com as palavras em campanha, poderá reduzir o papel dos EUA na Otan e na ONU. Também poderá aumentar o protecionismo e retirar o país de tratados de livre-comércio. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha começará sua retirada da União Europeia. 

Os governos de Trump e da primeira-ministra britânica, Theresa May, defensora do Brexit, devem servir de combustível para a ascensão de outros líderes e movimentos nacionalistas na França, Alemanha e Holanda, onde haverá eleições em 2017. O descontentamento que levou aos resultados deste ano se deve a uma economia global que continua a beneficiar de forma desigual os ricos e essa desigualdade continua a ser o motor da instabilidade. 

“A concentração econômica está permitindo a empresas extrair lucros recordes”, escreveu Adrian Wooldridge, da Economist. “Gigantes como Google e Amazon desfrutam de fatias de mercado não vistas desde o final do século 19, a era dos barões ladrões.” 

O protecionismo proposto pelos populistas para recobrar os empregos não só deixará de cumprir a promessa e atender as demandas dos eleitores como pode resultar na desaceleração ainda maior da economia, como nos anos 30. Os novos tempos anunciam velhos fantasmas. A política externa será dirigida por interesses nacionais e não por valores ou pelo conceito de comunidade internacional, acredita o diplomata britânico Simon Fraser, que prevê um enfrentamento nos moldes da Guerra Fria. À BBC, ele disse: “A era pós-Guerra Fria de globalização liderada pelo Ocidente, predominância dos EUA e confortável ascendência dos valores liberais internacionais acabou.”

Em seu livro A quarta revolução: a corrida global para reinventar o estado (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), John Micklethwait e Wooldridge mostram como a desilusão com os governos ocidentais se tornou endêmica e põe em risco o modelo de Estado como conhecemos, com o centro da gravidade - e de poder - mudando rapidamente. 

As fissuras no Ocidente e o enfraquecimento do sistema internacional servem aos autocratas, como o Partido Comunista da China e o ex-agente da KGB Vladimir Putin, membros do Conselho de Segurança da ONU que usaram o veto para barrar ações contra Bashar Assad, na Síria, e ignoram determinações da organização (como na anexação da Crimeia e da disputa territorial de Pequim com Filipinas). 

“A partir da 2.ª Guerra, o Ocidente se dedicou a garantir que os problemas produzidos pelo autoritarismo não se repetissem. Os Aliados criaram instituições globais para estabilizar a economia e prevenir conflitos”, escreveu Wooldridge na Economist. “Os EUA lideraram uma política de contenção que primeiro limitou a expansão da União Soviética e, em seguida, levou ao seu colapso. Esta era de ouro, porém, está chegando ao fim. Agora, os primeiros tiros estão sendo disparados pela direita, não pela esquerda. As similaridades entre o colapso da ordem liberal de 1917 e hoje são fortes.” Nada mal para as celebrações dos 100 anos da tomada da Rússia por Lenin, em 2017.

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