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Velhos hábitos chavistas

Em 14 anos no poder na Venezuela, Hugo Chávez marcou presença com sua capacidade de encantar multidões e mobilizar a nação. Fica para os historiadores e antropólogos a tarefa de explicar por que um líder tão adorado em vida e quase beatificado no seu enterro travou uma guerra tão agressiva, tosca e incoerente contra a oposição. "Perdedor" e "porco" é pouco para ele qualificar Henrique Capriles, seu rival em duas eleições presidenciais. Ele também tachou o oposicionista, que é neto de poloneses vítimas do Holocausto, de "judeu errante", "agente sionista" e "neonazista".

Mac Margolis,

18 de agosto de 2013 | 02h03

Se a coerência não era o forte do líder bolivariano, a fidelidade segue inconteste, até na ofensa. Na semana passada, numa tumultuada sessão da Assembleia Nacional, o chavismo superou-se, protagonizando um espetáculo de insultos e vulgaridades verbais.

O alvo foi o de sempre, a frente oposicionista, chefiada por Capriles. A novidade foi o epíteto. Deputados do partido governante, PSUV, desancaram Oscar López, chefe de gabinete do governador de Miranda, acusando-o de liderar uma rede de prostituição de homossexuais e travestis, com anuência de Capriles.

Para sustentar a acusação, a bancada chavista divulgou fotos apreendidas numa batida policial. Nas imagens, supostamente comprometedoras, López aparece abraçando homens.

Na sessão em que revelou as "provas", o deputado governista Pedro Carreño, de frente para as câmeras de TV, acusou Capriles do delito de praticar "atos imorais". Retrucando uma acusação do próprio governador, que o teria chamado de corrupto, o deputado chavista descontrolou-se: "Responda, homossexual, aceite o desafio 'maricón'".

A sessão prolongou-se e virou manchete nacional. Foi a deixa para o presidente Nicolás Maduro, que teve de acionar sua assessoria para controlar o dano. Não se saiu bem. No dia seguinte, num bairro popular de Caracas, orquestrou um evento público onde empunhou uma bandeira arco-íris e teceu elogios à diversidade sexual, posando com um grupo de militantes. "Venham e me deem um abraço", gritou. "Não sou homofóbico. A revolução reivindica respeito a todos."

No entanto, ele não resistiu ao tema e voltou a acusar Capriles de conivência com a prostituição ou de ignorá-la. "Descobrimos algo terrível. O que foi divulgado na Assembleia Nacional foi só 1% do que conseguimos na ação policial. O restante são vídeos e fotos de orgias impublicáveis", disse Maduro.

Capriles optou por não entrar na provocação. "Uma águia não caça mosca", devolveu o opositor ao deputado governista Pedro Carreño. "Todo apoio para Oscar López", postou no Twitter. Para o desatino oficial, o caso é fumaça para escamotear escândalos bem maiores do governo.

Um deles envolve a Ferrominera, uma mineradora estatal cujo executivo-chefe foi preso em junho, suspeito de ter cometido um festival de irregularidades, como subfaturamento, pagamento de propinas e o desvio de US$1,2 bilhão da empresa.

Desvio. Sacudido por denúncias, o presidente Maduro reagiu de modo bem bolivariano, com um plano de governo. A oposição vê na sua estratégia emergencial nacional contra a corrupção uma jogada ao estilo chavista, já que vem embrulhado num pacotão de medidas e pleiteia poderes excepcionais.

Pelo jeito, os venezuelanos não se impressionaram. Numa pesquisa recente, publicada no jornal El Universal, 52% acham que a guerra contra corrupção é apenas propaganda. Quase 56% julgam insuficientes as medidas anunciadas para combatê-la. Na hora da dúvida, a oposição que se cuide. *É colunista do 'Estado', correspondente da revista 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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