Velório de Mandela tem 4 horas de fila

Exposição pública do corpo do ex-presidente ocorre na sede do poder, onde Madiba fez seu célebre discurso de posse, em maio de 1994

Andrei Netto, enviado especial a Pretória,

12 de dezembro de 2013 | 00h02

PRETÓRIA - Milhares de pessoas ficaram em fila por até quatro horas para se despedir por alguns segundos do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. O corpo do líder foi exposto pela manhã no Union Buildings, sede da presidência, em Pretória, onde o velório público ocorrerá até sexta-feira. O local, que também atraiu líderes e celebridades internacionais, é o mesmo em que Madiba pronunciou seu mais célebre discurso, o de sua posse, em 1994.

O evento teve um perfil diferente do realizado na terça-feira, quando mais de 90 chefes de Estado e de governo compareceram ao Soccer City, em Johannesburgo, para prestar homenagem ao prêmio Nobel da Paz. A principal diferença é que em Pretória o evento tem um caráter ainda mais popular, de despedida e velório, do que o tributo político e religioso ocorrido no estádio.

Desde as primeiras horas da manhã, uma multidão de sul-africanos se concentrou em frente aos portões do Union Buildings para esperar o início da visitação. Em lugar de luto e silêncio, grupos de centenas de sul-africanos, a maioria jovens, corriam e dançavam nas ruas em torno do prédio entoando saudações a Madiba. "Mandela, ninguém é igual a você" e "Mandela, meu presidente", cantavam.

No fim da manhã, quando os portões foram abertos, as filas se estenderam por centenas de metros. O corpo foi colocado em uma área a céu aberto sob um toldo no Anfiteatro Nelson Mandela - recém nomeado pelo presidente Jacob Zuma em homenagem ao líder morto na quinta-feira. Em um caixão de madeira escura, uma tampa acrílica foi instalada, deixando visível a parte superior de Mandela. Ele foi vestido com uma camisa estampada, como as que usava em vida, em marrom predominante sobre tons de laranja e dourado.

Em razão da grande afluência, a passagem ao lado do caixão com corpo durava alguns segundos. A despeito do pouco tempo, os sul-africanos se mostraram satisfeitos, apesar da fila e do sol forte. Em lugar de celebrar sua vida, como acontecia do lado de fora do Union Buildings, dentro predominava o silêncio. "É muito tocante vê-lo pela última vez", disse o estudante Sandile Mbatha, de 33 anos. "Foi um grande homem, que agora merece descansar em paz."

"Em me sinto triste, mas precisamos aceitar que o perdemos. Sabíamos há muito tempo que esse momento era iminente", disse o taxista Siphiwi Sithole, de 47 anos. Para Daniel Maifo, funcionário público, de 39 anos, a África do Sul vive uma semana triste, a despeito do tom de celebração à vida que muitos de seus compatriotas se empenham em transmitir. "Esse homem contribuiu muito para o nosso país, ele forjou a África do Sul que conhecemos", afirmou. "Mas seu legado está aí. Sua política continua e tenho certeza de que nossos políticos saberão honrar a sua herança."

SEPARAÇÃO

Os admiradores "anônimos", negros e brancos, foram precedidos de duas das três ex-mulheres de Mandela, Winnie Madikizela-Mandela, e Graça Machel; de políticos sul-africanos, como Zuma e o ex-presidente e também prêmio Nobel da Paz, Frederik de Klerk; de líderes regionais, como o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe; e de expoentes mundiais, como o ex-presidente americano Bill Clinton. A eles se juntaram personalidades e ativistas, como o cantor Bono Vox, da banda U2.

Por ironia, a visita das celebridades ao homem que combateu e ajudou a derrubar o apartheid, o regime de segregação racial na África do Sul, ocorreu em separado, antes das 11 horas - quando só então os portões foram abertos à multidão.

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