Vença quem vencer na eleição americana, a crise durará anos

ANÁLISE: Obama não entregou uma vida melhor, mas tem conseguido manter o navio flutuando, já Romney não esclarece o que fará com a economia

Celso Ming,

03 de novembro de 2012 | 21h47

Desde que o marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, criou em 1992 aquele slogan vencedor ("É a economia, estúpido"), ficou sacramentado o princípio de que é a política econômica que elege ou rejeita um candidato à presidência dos Estados Unidos.

Quem examina hoje a foto da economia americana não vê uma paisagem muito diferente da que existia em 2008, quando Barack Obama foi eleito com 52,9% dos votos populares e se tornou o primeiro negro a chefiar a Casa Branca.

A atividade econômica continua devagar quase parando, ao ritmo de apenas 2% ao ano; o desemprego mantém-se alto demais, em 7,8% da força de trabalho; o rombo anual do Tesouro Federal segue em torno de US$ 1,1 trilhão; e o do comércio exterior, em R$ 560 bilhões por ano.

Os juros básicos (Fed Funds) continuam rastejantes (em torno de zero por cento ao ano), o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) desde 2008 vem despejando mais de US$ 2 trilhões, "de helicóptero", nos mercados e continua bombeando US$ 40 bilhões mensais em recompra de títulos. E, no entanto, as famílias ainda estão excessivamente endividadas, penduradas em hipotecas impagáveis e em vários cartões de crédito, de onde se sacam recursos novos para pagar o que está vencendo.

Diante desse quadro pouco animador, o eleitor americano tem duas opções. A primeira é reeleger o democrata Barak Obama. Ele não entregou uma vida melhor. Mas, ao menos, vem conseguindo manter o navio americano flutuando - apesar de ter recebido do predecessor republicano, George W. Bush, a terrível herança da maior crise econômico financeira desde os anos 30.

A segunda opção é o republicano Mitt Romney, que vem acusando o atual governo de ter feito pouco para tirar o setor produtivo da encalacrada, mas acena com uma economia construída com redução de impostos principalmente para os mais ricos.

Obama apresentou-se ao eleitor e foi escolhido para a Presidência em 2008 como candidato da mudança. Prometeu pôr freios nos bancos e acabar com a ganância dos executivos do mercado financeiro - que ganhavam centenas de milhões de dólares por ano à custa de correntistas e aplicadores. E garantiu que exigiria mais eficiência do setor produtivo que vinha fechando postos de trabalho.

Depois, viu-se que assumiram postos-chave do seu governo alguns dos símbolos do mundo das finanças, como o secretário do Tesouro, Tim Geithner, e o ex-reitor de Harvard, Larry Summers. Eles se opuseram ao aumento de regulação do sistema.

Menos controvertida hoje, mas foco das críticas dos republicanos em 2010, foi a operação de salvamento das grandes montadoras dos Estados Unidos: General Motors, Chrysler e Ford, que foram presenteadas com verbas públicas de US$ 24,9 bilhões.

O grande problema do governo ainda é o abismo das contas públicas (fiscal cliff). A dívida do Tesouro cresce acima de US$ 1 trilhão por ano e, no entanto, o Congresso, dominado pelos republicanos, só autorizou um total devedor de US$ 16,4 trilhão. Se não contar com nova lei que permita a expansão desse passivo, o próximo presidente terá de promover fortes revisões orçamentárias, tanto com aumento de impostos quanto com redução de despesas.

O resultado dessa operação poderá provocar novo afundamento da economia americana e mundial, numa recessão ainda mais destrutiva de empregos do que a produzida pela crise de 2008.

Romney não foi muito claro sobre como pretende conduzir a economia. Fala em criar 12 milhões de postos de trabalho, mas não diz como. Ele mesmo tem capitais aplicados na China, cuja economia tem sido acusada de tirar empregos nos Estados Unidos.

Pretende cortar em 20% as alíquotas do Imposto de Renda e jura que fará isso sem derrubar a receita e sem reduzir os abatimentos autorizados.

Durante o segundo governo do democrata Bill Clinton, o então presidente do Fed, Alan Greenspan, alardeava que, das contas públicas dos Estados Unidos, resplandeciam superávits de R$ 300 bilhões por ano. A dívida cairia tanto, avisava Greenspan, que dez anos depois o Fed teria de operar a política monetária (política de juros) com títulos privados. Mas veio a administração republicana do presidente George W. Bush, que empreendeu duas guerras simultâneas, a do Iraque e a do Afeganistão e, depois, a crise. O endividamento foi lançado a níveis recordes (hoje de 107% do PIB).

É difícil sustentar a tese de que um governo republicano esteja mais bem equipado para administrar a maior economia do mundo do que um governo democrata.

Quem assumir a Casa Branca terá muita crise pela frente. Em outubro, o Fed avisou que ninguém deve contar com alta dos juros antes de meados de 2015. Pelo menos até lá, os juros ficarão no rodapé para garantir melhores condições para o mercado de trabalho.

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