Vencedor assume um país no caminho de volta à normalidade

Análise: Matthew Yglesias

É BLOGUEIRO, COLUNISTA DA SLATE, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h03

Os partidários sempre preferem a vitória à derrota, mas, numa retrospectiva, algumas eleições foram mais uma espécie de cálice com veneno. A vitória apertada do democrata Jimmy Carter sobre o republicano Gerald Ford em 1976, por exemplo, simplesmente levou os democratas a arcar com a culpa por problemas econômicos que eram globais, o que abriu caminho para a vitória do oponente Ronald Reagan em 1980.

Em 2004, os democratas estavam desesperados para tirar George W. Bush do cargo, mas seu segundo mandato terminou sem incidentes em termos políticos e a derrota de John Kerry permitiu a seu partido escapar de uma crise financeira que quase certamente ocorreria de qualquer jeito.

Embora (quase) tudo seja possível nas urnas, 2012 configura-se como um tipo diferente de eleição: aquele que vencer deverá presidir o país retornando à normalidade econômica, o que deverá tornar qualquer governo basicamente competente parecer fantástico comparado à última década de penúria. Veja a afirmação de Mitt Romney de que as medidas que pretende adotar criarão 12 milhões empregos. Ela lhe causou problemas junto a especialistas em análise econômica por uma razão inusitada: muita gente acha que isso deve ocorrer de qualquer maneira.

A Moody's Analytics, por exemplo, publicou uma análise das perspectivas econômicas em abril, prevendo mais 11,7 milhões de empregos nos próximos quatro anos. A Macroeconomic Advisers fez um prognóstico similar, de 12,3 milhões de empregos nos próximos quatro anos.

Certamente, nem todos são assim tão otimistas. O Escritório de Orçamento do Congresso tem uma perspectiva relativamente pessimista, sugerindo a criação de 9,6 milhões de empregos nesse mesmo período. Em sua previsão, o centro está assumindo que o "fiscal cliff" (abismo fiscal) de aumentos de taxas e cortes de despesas será implementado como exigido por lei. Como nenhum candidato defende tais medidas, as probabilidades de alguma política alternativa ser adotada no final são extremamente altas.

E mais, mesmo se forem criados apenas 9,6 milhões de empregos, ou até menos, isso será visto e sentido como um enorme sucesso, comparado com o que temos observado ultimamente.

Observe que, durante os oito anos de governo de George W. Bush, o saldo líquido de contratações aumentou para cerca de um milhão, ao passo que, no primeiro mandato de Obama, foi para pouco mais de meio milhão. Pelos padrões históricos isso é péssimo. Mais de 11 milhões de empregos foram criados em cada um dos dois mandatos de Bill Clinton.

Se a atual tendência se mantiver durante os próximos quatro anos sem qualquer mudança na política econômica, 7,8 milhões de empregos serão criados. E se, reeleito, Obama conseguir mesmo esse crescimento medíocre, poderá facilmente criar um quadro em que as cifras medonhas do seu primeiro mandato seriam apenas vestígios da recessão do período Bush - e salvar seu legado. Um presidente Romney, diante dos mesmos dados, poderá afirmar que salvou a economia de anos de estagnação resultante das medidas políticas intervencionistas de Obama. Mas tudo o que ele estará fazendo, na verdade, será continuar com a mesma recuperação moderada e frustrante que vimos no ano passado.

A razão-chave pela qual o número de vagas certamente aumentará, pelo menos a uma taxa tépida, é a política monetária. Ellis Tallman e Saeed Zaman mostraram em pesquisa para o Cleveland Federal Reserve que as condições econômicas objetivas existentes em 2009 justificavam uma taxa dos fundos federais de menos de 5% - se isso fosse possível. Mas o Federal Reserve não pode estabelecer taxas de juro nominais abaixo de zero e não deseja elevar sua meta de inflação para reduzir os juros reais. Consequentemente, com os juros mantidos no patamar de zero por cento, o que temos é exatamente o que se esperaria num país em que o banco central estabelece taxas 5 pontos porcentuais - aumentando o desemprego e com uma recuperação apática.

Mas, à medida que a economia melhora, a taxa apropriada de juro fica mais alta. Tallman e Zaman estimam que, no segundo trimestre de 2012, ela deveria estar em torno de menos 2%. Assim, as taxas, embora ainda muito altas, estariam mais próximas do patamar adequado.

Durante 2012, a política de taxa de juro zero naturalmente ficará mais próxima da meta, o que significa que o crescimento será sustentado e quem estiver na presidência certamente ficará com o mérito por algo que na verdade não merece.

Não há razão para achar que 2013-2016 será um período de crescimento muito rápido como ocorreu no final dos anos 30 e em meados da década de 80. Mas é muito provável que os próximos quatro ou cinco anos serão melhores do que os últimos quatro ou cinco. Isso significa que aquele que vencer a eleição provavelmente será endeusado e nossa compreensão do legado de Obama pode ser colocada em dúvida. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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