Vencedor dominará também o Congresso

ASSUNÇÃO - Se a falta de apoio no Congresso custou ao ex-presidente Fernando Lugo seu mandato, isso dificilmente ocorrerá com o colorado Horacio Cartes, eleito no domingo. Além do Executivo, seu partido - que governou por 61 anos, até 2008 - conquistou a maioria da Câmara e uma expressiva fatia do Senado, segundo resultados preliminares das urnas.

O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h04

Esse novo equilíbrio de poder será decisivo para enfrentar questões como o aval à incorporação da Venezuela ao Mercosul ou a imposição de 10% de imposto sobre a soja - temas especialmente caros ao Brasil e aos "brasiguaios" da região do Alto Paraná.

O Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE) ainda não divulgou os resultados definitivos da votação legislativa, mas o que se estima é que o Partido Colorado consiga, sozinho, pelo menos 41 das 80 cadeiras da Câmara. No Senado, teria no mínimo 19 dos 45 assentos.

"Tivemos a vitória que estávamos esperando desde 2008 (quando os colorados deixaram o poder)", disse em entrevista ao Estado a presidente do partido, Lilian Samaniego. "Na Câmara, não teremos de recorrer a outras forças políticas para conseguir o que queremos", completou.

A vitória dos colorados veio porque o partido "aprendeu com os erros de 2008", disse Lilian. Uma das mudanças-chave teria sido a extinção de uma cláusula que restringia a candidatura à presidência a pessoas com pelo menos dez anos de militância no partido. Foi essa alteração que permitiu a Cartes - filiado em 2009 - ascender ao primeiro escalão.

As informações preliminares confirmam também a expectativa de que a esquerda se torne a terceira força política do Paraguai. O motivo principal foi a candidatura de Lugo ao Senado, que "puxou votos" para sua legenda. Juntos, os grupos esquerdistas elegeram entre 7 e 9 senadores. Na Câmara, porém, ficaram com entre 4 e 6.

A Constituição paraguaia aprovada após a ditadura de Alfredo Stroessner busca enfraquecer o Executivo e, segundo analistas, dá um peso excessivo ao Congresso. Legisladores conseguem até mesmo determinar nomeações de ministros e embaixadores. / R. S.

ANÁLISE: Lourival Sant'Anna

O fato de Horacio Cartes ter saído candidato pelo Partido Colorado pode levar a conclusões erradas sobre sua eleição. Sem dúvida, com ele o partido que governou por sete décadas volta ao poder, depois do interregno de cinco anos com a eleição de Fernando Lugo e sua substituição pelo seu vice, Federico Franco, do Partido Liberal. Mas não foi essa a motivação dos paraguaios.

O que atraiu os eleitores em Cartes foi aquilo que os levou a votar em Lugo, em 2008: o fato de ele não ser político. Tanto um quanto outro disputavam um cargo público pela primeira vez quando se elegeram presidentes. Do ponto de vista do perfil pessoal ideológico, ninguém poderia ser mais distante de Lugo do que Cartes.

O ex-bispo tem forte ligação com os chamados movimentos populares, defende a reforma agrária e os direitos das minorias. Cartes é um dos homens mais ricos do Paraguai, apresenta-se como representante do chamado setor produtivo e, ao comentar o casamento de homossexuais, aprovado na Argentina e no Uruguai, disse que daria um tiro nos próprios testículos (ele usou expressão menos elegante) se seu filho enveredasse por esse caminho.

Nos cinco anos que separam a eleição de Lugo e de Cartes não houve uma reviravolta ideológica na opinião pública. Os paraguaios seguem como há cinco anos: cansados dos políticos e de seus grupos. No centro dessa exaustão está a corrupção endêmica, que impede o desenvolvimento do país.

Há cinco anos, Lugo pareceu um homem simples e moralmente reto, que governaria em favor dos interesses da maioria. Ele continua sendo visto assim por muitos paraguaios. Mas as mudanças na qualidade de vida e nas oportunidades não vieram no ritmo e profundidade esperados.

Os paraguaios sabem que Cartes, acusado de contrabando de cigarros para o Brasil e de lavagem de dinheiro, não é um "santo". Mas, perguntam eles, quem é? O fato de Cartes já ser rico desperta nos eleitores a esperança de que ele, afinal, "não precise roubar". Como empresário bem-sucedido, talvez saiba gerir com resultados, imaginam. A sucessão de frustrações ensinou os paraguaios a dosar suas expectativas.

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