Ivan alvarado | Reuters
Ivan alvarado | Reuters

Vencedor já trabalha por alianças no Congresso

Sergio Massa, que obteve 21,3% no 1º turno, oferece apoio de sua coalizão UNA

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 23h43

Um dos temas mais discutidos após a eleição do conservador Mauricio Macri para presidir a Argentina a partir do dia 10 é a governabilidade. O país tem um histórico de governos não peronistas curtos em função da falta de suporte no Congresso e de parte dos sindicatos.

“A ideia é governar para absolutamente todos. Estivemos anos demais enfrentando uns aos outros, querendo expor nossas diferenças, mas há mais coisas que nos unem do que nos separam”, disse Macri nesta segunda-feira de manhã, em um sinal para o peronismo, que ainda detém a maioria clara no Senado – 45 dos 72 assentos.

Se está em clara minoria na Câmara Alta, o que o obrigará a negociar, na Câmara dos Deputados Macri obteve um sinal positivo ainda na noite de domingo. O ex-kirchnerista Sergio Massa, que obteve 21,3% dos votos no primeiro turno e depois disse esperar que Scioli não ganhasse, demonstrou que estenderá esse apoio também ao Parlamento.

“Mauricio, você e seu governo contam com toda nossa colaboração, pois achamos há muito tempo que para um argentino não deve haver nada mais importante que outro argentino. Conta comigo como líder desse espaço político, com a ajuda de todos os prefeitos, deputados e vereadores do nosso grupo para construção de um país melhor”, afirmou Massa numa entrevista coletiva em Tigre, cidade turística na região metropolitana de Buenos Aires.

“A Argentina caminha para uma orientação mais republicana. Nossa tarefa é representar uma Argentina inteligente. Vamos apoiar o que está bem e apontar o que está mal”, disse Massa, em tom conciliador.

O apoio do ex-kirchnerista, deputado que lidera a coalizão UNA, é decisivo, pois a bancada kirchnerista terá 107 dos 257 assentos – perdeu 26 cadeiras, mas permaneceu como a maior. A coalizão Cambiemos, de Macri, terá 90 cadeiras, porque decidiu às vésperas do debate do dia 15, a uma semana do segundo turno, funcionar também como bloco parlamentar. Ainda assim, há dissidências dentro da União Cívica Radical (UCR), rival histórica do peronismo, quanto à permanência na agrupação.

Em relação ao sindicatos – cuja capacidade de organização no corte de estradas e em greves gerais que paralisam o país é o principal pesadelo dos presidentes –, Macri conta com o apoio de Hugo Moyano, líder do principal sindicato, a Confederação Geral do Trabalho (CGT). Moyano apoiou Cristina Kirchner até 2011.

Macri provavelmente encontrará alguma tranquilidade para governar, pelo menos no início do mandato de quatro anos, também porque sua coalizão detém agora o poder nas três administrações mais cobiçadas do país. Conseguiu eleger o sucessor na prefeitura da capital, Buenos Aires, administrada há oito anos pelo próprio Macri.

Agora, desbancou o peronismo na Província de Buenos Aires, onde estão 37% dos eleitores argentinos, uma derrota quase tão pesada para o kirchnerismo quanto a presidência. Isso é uma vantagem para o recém-eleito presidente, pois o peronismo sempre contou com o financiamento e a estrutura estatal como extensão de sua força política.

A concentração de poder nas mãos de uma coalizão liderada pelo Proposta Republicana (PRO), criado há dez anos por Macri, traz um problema prático. Não há quadros em número suficiente para ocupar todos os escalões. Ontem, o prefeito eleito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, explicava que não definiu seu secretariado porque não sabe ainda quem Macri levará para a presidência.

Discute-se no país se a margem 2,8 pontos obtida sobre o governista Daniel Scioli, menor do que apontavam pesquisas de opinião, o obriga a buscar uma aproximação com o peronismo. “Uma eleição em segundo turno, sempre dissemos, é vencida por um voto”, disse Marcos Peña, que coordenou a campanha de Macri e será seu futuro chefe de gabinete, uma espécie de porta-voz do governo.

Nesta segunda-feira, o atual chefe de gabinete de Cristina, Aníbal Fernández, que perdeu o governo da Província de Buenos Aires, disse que se o kirchnerismo tivesse ganho por essa margem, “os tanques estariam na porta”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.