Vencedores e derrotados

Ainda vivemos num mundo em que as lideranças individuais podem alterar substancialmente as vidas e perspectivas de seus povos. Sua capacidade de administrar crises e explorar oportunidades para fazer avançar seus países separa vencedores de perdedores no palco internacional e na economia global.

Ian Bremmer, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

Da alemã Merkel ao russo Putin, passando pelo japonês Abe, a brasileira Dilma e o turco Erdogan, os lideres dominam o noticiário. Líderes como o grego Alexis Tsipras e o sírio Bashar Assad são notáveis principalmente por sua capacidade de sobrevivência. Mas há outros líderes que merecem ser examinados de perto.

O senso comum nos ensinou que ninguém consegue aproveitar o embalo de uma reforma econômica na Índia e melhorar o perfil internacional do país. 

Ninguém consegue combater a corrupção e obrigar o Boko Haram a recuar na Nigéria. Ninguém consegue reformar a política italiana e abrir a economia do país. Eis aqui três líderes que estão redefinindo aquilo que imaginamos ser possível.

Comecemos com Narendra Modi, da Índia, primeiro-ministro de um país mais conhecido pelo potencial do que desempenho. 

Desde quando assumiu o cargo em maio de 2014 após a mais retumbante vitória vista nas eleições parlamentares em 30 anos, Modi conquistou amplo apoio popular a reformas necessárias para melhorar o clima de negócios no país, dar início a um desenvolvimento econômico acelerado e estabelecer uma governança muito mais eficiente, atraindo neste processo uma maré de investimento estrangeiro.

Ele melhorou o perfil internacional do país e ampliou sua influência indo além de cúpulas multinacionais, empreendendo uma série de visitas de Estado bilaterais bem-sucedidas em todo o mundo.

Modi surpreendeu os críticos ao envolver-se diretamente com a crescente população jovem de classe média-baixa por meio do uso inovador de novas mídias. Em discursos emotivos de grande destaque, Modi tomou a decisão popular e sem precedentes de comentar questões sociais que vão desde a desigualdade de gênero até problemas práticos como a falta de banheiros adequados no país. Por fim, ele foi além da imagem popular de seu partido, ligado ao nacionalismo hindu, e buscou melhorar as relações da Índia com o Paquistão.

O nigeriano Mohammadu Buhari está na presidência há menos de cinco meses, mas já fez história. Sua vitória eleitoral sobre o ex-presidente Goodluck Jonathan foi a primeira transição de poder pacífica de um partido para outro desde 1999, quando a Nigéria, maior economia da África, se tornou uma democracia. Foi também uma transferência da presidência do sul do país, de maioria cristã, para o norte, de maioria muçulmana. A ausência de episódios violentos antes, durante e depois das eleições foi motivo de celebração, e ambos merecem o crédito por isso.

Buhari tem formado seu gabinete aos poucos, mas nomes críveis começaram a emergir na semana passada, e ele sinalizou que uma faxina do setor do petróleo será uma das prioridades iniciais, nomeando a si mesmo como ministro do petróleo. A Nigéria está entre os dez maiores exportadores mundiais de petróleo, mas há anos o setor é afetado pela corrupção e ineficiência. Buhari está prestes a lançar uma grande campanha de combate à corrupção. Também vai reestruturar a estatal Nigerian National Oil Corporation, e apresentar amplas reformas para o setor que atrairão mais envolvimento e investimento por parte das empresas internacionais do ramo. 

Além disso, Buhari, muçulmano e general da reserva, deve ter mais sucesso que seu antecessor no combate aos militantes do Boko Haram no nordeste do país, incluindo a possibilidade de parcerias com outros governos para atacar o grupo em múltiplas frentes.

Temos finalmente o italiano Mateo Renzi, que venceu desafios domésticos e externos e abriu caminho pela bizantina burocracia do país para trazer novo impulso à reforma econômica após mais de uma década de estagnação econômica, inércia no governo e crescente endividamento público. Importante notar que ele resistiu à pressão de todo o espectro político italiano no sentido de gastar mais dinheiro do que aquele que o governo da Itália já deve, restaurando boa parte da credibilidade dos italianos na UE.

Até o momento, seu maior feito foi um amplo plano de reforma trabalhista antes inimaginável que vai ajudar muito a abrir o esclerosado mercado de trabalho italiano. Mas o maior feito de Renzi pode estar no futuro. Ele pressiona para revogar a maioria dos poderes da câmara superior, introduzindo um novo sistema eleitoral que favorece os partidos maiores para encerrar a longa história de breves e instáveis governos italianos de coalizão.

Os três líderes mencionados estão apenas começando. Nenhum provou que veio para ficar. Mas seus sucessos iniciais e as barreiras que já superaram indicam que merecem mais atenção internacional do que têm recebido até o momento./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

IAN BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E PROFESSOR DE PESQUISA GLOBAL NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK 

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